{"id":3805,"date":"2020-09-08T15:33:10","date_gmt":"2020-09-08T18:33:10","guid":{"rendered":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=3805"},"modified":"2020-09-08T15:35:10","modified_gmt":"2020-09-08T18:35:10","slug":"sobre-mineirices-gerais-e-abstratas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=3805","title":{"rendered":"Sobre mineirices gerais e abstratas"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/07d1e1b6-3ed6-467f-bd13-3a13b3632dc1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3806\" width=\"345\" height=\"316\" srcset=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/07d1e1b6-3ed6-467f-bd13-3a13b3632dc1.jpg 700w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/07d1e1b6-3ed6-467f-bd13-3a13b3632dc1-300x274.jpg 300w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/07d1e1b6-3ed6-467f-bd13-3a13b3632dc1-696x636.jpg 696w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/07d1e1b6-3ed6-467f-bd13-3a13b3632dc1-459x420.jpg 459w\" sizes=\"(max-width: 345px) 100vw, 345px\" \/><figcaption><strong>Luciano Alberto de Castro<\/strong><br><em>Cronista e professor da Universidade Federal de Goi\u00e1s,\u00a0\u00e9 mestre em odontologia pela Universidade Federal de Goi\u00e1s\u00a0(UFG),\u00a0Doutor em ci\u00eancias da sa\u00fade (UFG),\u00a0Professor adjunto da Faculdade de odontologia da UFG<\/em><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Erroneamente atribu\u00eddo a Drummond, o poema \u201cSer Mineiro\u201d foi escrito pelo patrocinense Jos\u00e9 Batista Queiroz e \u00e9 uma ode ao jeito mineiro de ser (acho que Drummond n\u00e3o seria mesmo t\u00e3o generoso). Queiroz \u2014 o escritor, n\u00e3o o fuj\u00e3o \u2014 desenha o mineiro com a pena da lisonja e a tinta do regionalismo. A figura que surge \u00e9 a do ser dotado de esperteza, simplicidade, mod\u00e9stia, sabedoria e uma desconfian\u00e7a milimetricamente calculada. O rol das virtudes n\u00e3o para por a\u00ed: o poeta ressalta a bravura, a fidalguia e a eleg\u00e2ncia do habitante das montanhas. O que fala pouco e escuta muito. O apreciador da natureza. O amante da liberdade, das letras e das artes. Ufa! Como \u00e9 bom ser mineiro.<\/p>\n\n\n\n<p>O poema era uma esp\u00e9cie de cart\u00e3o de identidade obrigat\u00f3rio em casa de mineiro. Especialmente se o montanh\u00eas se encontrasse longe dos seus dom\u00ednios. Era o nosso caso. Mor\u00e1vamos tr\u00eas mineiros na buc\u00f3lica Goi\u00e2nia no in\u00edcio dos anos 80. Obviamente, na parede da rep\u00fablica, ostent\u00e1vamos o nosso RG: l\u00e1 estava o \u201cSer Mineiro\u201d em letras garrafais, enquadrado, com moldura e passe-partout. Volta e meia ouvia-se algu\u00e9m declamando os versos a alguma mo\u00e7a que nos visitava. E a di\u00e1spora mineira ia trazendo mais gente. De Pirapora, veio o R\u00f4mulo Santos para prestar vestibular para Engenharia. Ap\u00f3s ler o texto na parede, o R\u00f4mulo afirmou, categ\u00f3rico: \u201cSe ser mineiro \u00e9 tudo isso aqui, ent\u00e3o eu acho que n\u00e3o sou mineiro n\u00e3o\u201d!<\/p>\n\n\n\n<p>Na \u00e9poca, protestei, contrafeito: como n\u00e3o se apropriar de predicados t\u00e3o nobres? Tudo aquilo era nosso por direito. Por\u00e9m, hoje, tendo um pouco mais de siso do que aquele \u201cdezoitanista\u201d deslumbrado, eu entendo a recusa do R\u00f4mulo em identificar-se com a lavra ufanista de Queiroz. O estro do poeta dera-nos virtudes demais. Al\u00e9m de inveross\u00edmil, aquilo tudo poderia nos sufocar. N\u00e3o t\u00ednhamos direito nem a um defeitozinho? Uma imperfei\u00e7\u00e3ozinha \u00e0 toa? Precisamos deles. Eu n\u00e3o estou negando a minha raiz fincada no solo dos Gerais: orgulho-me dela. Admito, inclusive, possuir algumas das mencionadas virtudes. Mas aproximo-me mais da pluralidade enigm\u00e1tica de Minas do que da exalta\u00e7\u00e3o desmedida.<\/p>\n\n\n\n<p>Drummond escreveu que \u201cMinas n\u00e3o \u00e9 palavra montanhosa, \u00e9 palavra abissal\u201d. Minas \u00e9 ant\u00edtese. Territ\u00f3rio do inescrut\u00e1vel. Ao mesmo tempo, luz e mist\u00e9rio (Como diz a m\u00fasica). Numa madrugada fria de julho, estava eu sentado no \u00faltimo degrau da escadaria da igreja de Santa Rita, no Serro. L\u00e1 embaixo, a velha cidade ainda dormia. Do alto, eu avistava os telhados de quatro \u00e1guas, o zimb\u00f3rio das igrejas, as palmeiras, os morros. Era imposs\u00edvel n\u00e3o se emocionar com o belo que emanava da paisagem setecentista. Por\u00e9m algo nost\u00e1lgico e triste me rondava. Comecei a ouvir sons. O tropel das mulas. Os cincerros batendo. Vozes. Ouvi o estalar do l\u00e1tego. O gemido dos moribundos. O murm\u00fario dos loucos. Naquele inesquec\u00edvel amanhecer, um anjo torto e morador das sombras experimentava o encantamento e a melancolia de ser mineiro. Goi\u00e2nia, agosto de 2020.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Erroneamente atribu\u00eddo a Drummond, o poema \u201cSer Mineiro\u201d foi escrito pelo patrocinense Jos\u00e9 Batista Queiroz e \u00e9 uma ode ao jeito mineiro de ser (acho que Drummond n\u00e3o seria mesmo t\u00e3o generoso). Queiroz \u2014 o escritor, n\u00e3o o fuj\u00e3o \u2014 desenha o mineiro com a pena da lisonja e a tinta do regionalismo. 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