{"id":4155,"date":"2020-09-17T10:12:00","date_gmt":"2020-09-17T13:12:00","guid":{"rendered":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=4155"},"modified":"2020-09-17T10:58:59","modified_gmt":"2020-09-17T13:58:59","slug":"em-defesa-da-ciencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=4155","title":{"rendered":"Em defesa da ci\u00eancia"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Jos\u00e9-Carlos-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-4156\" width=\"352\" height=\"258\" srcset=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Jos\u00e9-Carlos-1.jpg 700w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Jos\u00e9-Carlos-1-300x221.jpg 300w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Jos\u00e9-Carlos-1-80x60.jpg 80w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Jos\u00e9-Carlos-1-696x512.jpg 696w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Jos\u00e9-Carlos-1-571x420.jpg 571w\" sizes=\"(max-width: 352px) 100vw, 352px\" \/><figcaption><strong><em>Jos\u00e9 Carlos Freire &#8211; <\/em>Professor da UFVJM, Campus de Te\u00f3filo Otoni\/MG<\/strong><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>As \u00faltimas quatro d\u00e9cadas foram alucinantes em termos de desenvolvimento tecnol\u00f3gico. Estar\u00edamos, no dizer de muitos, na era da informa\u00e7\u00e3o. Embora o avan\u00e7o tecnol\u00f3gico possa inspirar uma ideia de salto para frente na civiliza\u00e7\u00e3o, \u00e9 preciso cautela. A trama social \u00e9 muito complexa. Entre tantos elementos que a comp\u00f5em est\u00e1 o chamado senso comum, essa teia de ideias e concep\u00e7\u00f5es gerais que vamos construindo nas rela\u00e7\u00f5es cotidianas. Ele \u00e9 atravessado por interesses, preconceitos, ju\u00edzos de valor, assim como por elabora\u00e7\u00f5es criativas e constru\u00e7\u00f5es espont\u00e2neas. Tudo isso somado forma uma determinada interpreta\u00e7\u00e3o da vida e de seus fen\u00f4menos. Numa palavra, no senso comum impera a for\u00e7a da opini\u00e3o. Como \u00e9 sabido, uma opini\u00e3o pode ser acertada ou n\u00e3o. Precisa ser verificada com maior rigor. \u00c9 onde entra um outro modo de interpreta\u00e7\u00e3o da realidade: a ci\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Para encurtar a conversa: enquanto a opini\u00e3o \u00e9 livre e descompromissada, a ci\u00eancia persegue a verdade com rigor e, para isso, tra\u00e7a um plano e uma meta. Ao alcan\u00e7\u00e1-la, verifica se o plano foi bem sucedido ou n\u00e3o e por quais raz\u00f5es. Embora pare\u00e7a complicada essa conversa, na realidade n\u00e3o \u00e9. Foi gra\u00e7as a tipos variados de \u201cci\u00eancia\u201d que constru\u00edmos ferramentas, desenvolvemos a agricultura, confeccionamos artefatos etc. Quando dominamos algum processo, podemos test\u00e1-lo, aperfei\u00e7o\u00e1-lo e reproduzi-lo. Se permanecermos no campo da mera opini\u00e3o, ficamos ao sabor da sorte e do acaso.<\/p>\n\n\n\n<p>O ponto mais alto dessa hist\u00f3ria poderia ser situado, sem maiores detalhes, h\u00e1 500 anos. \u00c9 o contexto em que se consolida o m\u00e9todo cient\u00edfico moderno. Gra\u00e7as a ele, falando de modo gen\u00e9rico, conquistamos maiores condi\u00e7\u00f5es de conforto de vida e, simultaneamente, superamos problemas que nos prejudicavam. Para ficar num recorte simples, o da sa\u00fade, \u00e9 ineg\u00e1vel que hoje temos maior controle sobre elementos que a prejudicam e tamb\u00e9m sobre outros que a beneficiam. A medicina moderna \u00e9 um belo exemplo.<\/p>\n\n\n\n<p>Dito desse modo, parecer\u00e1 ao leitor que tudo foi um mar de rosas. E seu estranhamento \u00e9 acertado. Ali\u00e1s, quem se situa no campo da filosofia \u00e9, por princ\u00edpio, cr\u00edtico da ci\u00eancia, porque sabe que ela n\u00e3o \u00e9 neutra: est\u00e1 condicionada por fatores econ\u00f4micos, pol\u00edticos e sociais. Pode mesmo ser usada para preju\u00edzo das pessoas ou de grupos sociais inteiros como a hist\u00f3ria mostra. Al\u00e9m disso, um acento exagerado na ci\u00eancia \u2013 o chamado cientificismo \u2013 pode deixar em segundo plano ou mesmo ignorar elementos constitutivos da vida como a intui\u00e7\u00e3o, a sensibilidade e sobretudo a sabedoria ancestral dos povos que, paralelamente ao m\u00e9todo cient\u00edfico, vem ao longo dos s\u00e9culos constituindo tamb\u00e9m formas aut\u00eanticas de saber.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o n\u00e3o se trata de uma apologia cega. Mas o leitor viu bem no t\u00edtulo: defesa da ci\u00eancia. Por que? A raz\u00e3o \u00e9 simples: porque o momento exige. A chamada era da informa\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem filtro, ou seja, da mesma maneira que possibilita a propaga\u00e7\u00e3o de conhecimento seguro tamb\u00e9m d\u00e1 espa\u00e7o a opini\u00f5es sem fundamento algum, a n\u00e3o ser a convic\u00e7\u00e3o de quem as lan\u00e7a de forma inconsequente.<\/p>\n\n\n\n<p>Em termos de sa\u00fade o que temos visto \u00e9 um festival de horrores. Quinhentos anos de tradi\u00e7\u00e3o de pesquisa e controle de medicamentos, vacinas e procedimentos, entre outras coisas, s\u00e3o colocados em d\u00favida por qualquer um que, acreditando ser dono da verdade, imp\u00f5e a sua opini\u00e3o como a verdadeira. Em tal situa\u00e7\u00e3o \u00e9 preciso afirmar de modo contundente: com todos os limites e contradi\u00e7\u00f5es, o m\u00e9todo cient\u00edfico ainda \u00e9 o que temos de mais apropriado para discutir sa\u00fade p\u00fablica. Ali\u00e1s, um par\u00eantese: \u00e9 sobretudo pela finalidade social da ci\u00eancia que se defende a manuten\u00e7\u00e3o das Universidades P\u00fablicas, centros de pesquisa e produ\u00e7\u00e3o cient\u00edficas. Se elas forem privatizadas, sua finalidade deixar\u00e1 de ser p\u00fablica. Simples assim.<\/p>\n\n\n\n<p>Volto ao ponto. N\u00e3o, caro leitor. Aquele \u00e1udio de whatsapp, aquele \u201cmeme\u201d, aquele v\u00eddeo de um suposto g\u00eanio que voc\u00ea e eu recebemos n\u00e3o pode ter o mesmo grau de validade que a pesquisa feita por um profissional que passa anos estudando, submete-se a avaliadores, respeita os procedimentos e somente depois publica os resultados em ve\u00edculos apropriados. O que chega a voc\u00ea e a mim, nessa enxurrada de informa\u00e7\u00f5es, \u00e9, com raras exce\u00e7\u00f5es, mera opini\u00e3o, muitas vezes descaradamente falsa. Verifique a fonte, questione o conte\u00fado, analise sites de reconhecimento cient\u00edfico oficial. Pense bem. Fa\u00e7a um bem a si e \u00e0 sociedade: n\u00e3o seja transmissor de informa\u00e7\u00f5es que n\u00e3o sejam confi\u00e1veis.<\/p>\n\n\n\n<p>Na base da tradi\u00e7\u00e3o filos\u00f3fico-cient\u00edfica ocidental est\u00e1, entre outros pilares, a figura do grego S\u00f3crates, para quem a sabedoria n\u00e3o consiste em posse da verdade, mas sim em reconhecer a pr\u00f3pria ignor\u00e2ncia e, por isso, lutar constantemente para superar as falsas opini\u00f5es. A ci\u00eancia \u00e9 uma tentativa permanente de busca do conhecimento. N\u00e3o \u00e9 um dogma. Por isso a necessidade de tempo, de teste, de verifica\u00e7\u00e3o, de corre\u00e7\u00e3o das falhas. Com tudo isso, ainda \u00e9 o caminho para a solu\u00e7\u00e3o de problemas. No que toca a sa\u00fade, um tema t\u00e3o fundamental em nossos dias, n\u00e3o troquemos a ci\u00eancia pela opini\u00e3o de quem se julgue dono da verdade. Sobre ci\u00eancia, ou\u00e7amos cientistas.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma posi\u00e7\u00e3o social, um cargo pol\u00edtico, uma fun\u00e7\u00e3o religiosa n\u00e3o conferem a ningu\u00e9m o dom\u00ednio da verdade sobre a ci\u00eancia e muito menos sobre a sa\u00fade. A prop\u00f3sito, foram estas figuras que se indispuseram contra S\u00f3crates na antiga Atenas. O que elas temiam? Aquele velho fil\u00f3sofo? N\u00e3o. Temiam que as pessoas, ao ouvirem S\u00f3crates, superassem o n\u00edvel da mera opini\u00e3o. Para manter seu prest\u00edgio social e o poder pol\u00edtico, tais lideran\u00e7as necessitavam que reflex\u00e3o cr\u00edtica, base da ci\u00eancia, fosse combatida.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As \u00faltimas quatro d\u00e9cadas foram alucinantes em termos de desenvolvimento tecnol\u00f3gico. Estar\u00edamos, no dizer de muitos, na era da informa\u00e7\u00e3o. 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