{"id":4657,"date":"2020-10-02T01:25:28","date_gmt":"2020-10-02T04:25:28","guid":{"rendered":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=4657"},"modified":"2020-10-02T01:25:29","modified_gmt":"2020-10-02T04:25:29","slug":"a-felicidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=4657","title":{"rendered":"A felicidade"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Jos\u00e9-Carlos.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-4658\" width=\"289\" height=\"212\" srcset=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Jos\u00e9-Carlos.jpg 700w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Jos\u00e9-Carlos-300x221.jpg 300w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Jos\u00e9-Carlos-80x60.jpg 80w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Jos\u00e9-Carlos-696x512.jpg 696w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Jos\u00e9-Carlos-571x420.jpg 571w\" sizes=\"(max-width: 289px) 100vw, 289px\" \/><figcaption><strong><em>Jos\u00e9 Carlos Freire &#8211; <\/em>Professor da UFVJM, Campus de Te\u00f3filo Otoni\/MG<\/strong><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>As crian\u00e7as adoram contar seus sonhos. E sua narrativa \u00e9 rica em detalhes. D\u00e1 pra sentir sabores, ver as cores, ouvir os sons! Na minha casa isso \u00e9 uma divers\u00e3o. Outro dia J\u00falia veio com um sonho bacana. Era noite e por algum motivo ela s\u00f3 teria mais um dia de vida &#8211; os sonhos come\u00e7am do nada e geralmente n\u00e3o v\u00eam com explica\u00e7\u00f5es. \u00a0Ent\u00e3o, como naquela antiga brincadeira do \u201co que voc\u00ea faria se tivesse apenas um dia?\u201d, ela n\u00e3o titubeou: decidiu que queria brincar e tomar sorvete. Come\u00e7ou pelos jogos de tabuleiro em fam\u00edlia, entre uma colherada e outra. Se n\u00e3o tivesse acordado certamente brincaria de outras coisas com amigas e pessoas queridas.<\/p>\n\n\n\n<p>Ficamos papeando depois que ela contou o sonho. E eu pensei na felicidade, essa prima-irm\u00e3 da sabedoria. Um indicativo de que essas duas foram alcan\u00e7adas certamente seria esse: quando algu\u00e9m, lan\u00e7ando m\u00e3o da brincadeira do \u201co que voc\u00ea faria&#8230;\u201d conclu\u00edsse que suas vinte e quatro horas restantes seriam tais como as anteriores, ou seja, n\u00e3o precisaria correr atr\u00e1s de nada que faltasse. Evidente que este \u00e9 um prop\u00f3sito muito dif\u00edcil de se alcan\u00e7ar. Sempre temos muita coisa que ainda queremos viver ou fazer.<\/p>\n\n\n\n<p>Recordo-me do maravilhoso poema \u201cHospedaria\u201d de M\u00e1rio Quintana: \u201cEsta vida \u00e9 uma estranha hospedaria,\/ de onde se parte quase sempre \u00e0s tontas,\/ pois nunca as nossas malas est\u00e3o prontas\/ e a nossa conta nunca est\u00e1 em dia.&#8221; Que defini\u00e7\u00e3o sublime! Exatamente isso: a felicidade talvez seja aquela condi\u00e7\u00e3o em que as malas j\u00e1 est\u00e3o prontas e as contas, em dia. Em outras palavras: n\u00e3o h\u00e1 mais amarras, n\u00e3o h\u00e1 coisas pendentes, n\u00e3o h\u00e1 \u00e2ncoras. O barco pode navegar suavemente. F\u00f4ssemos sensatos, viver\u00edamos cada dia como o \u00faltimo. Mas sabemos que n\u00e3o basta nossa vontade. H\u00e1 in\u00fameros fatores que interferem nesse jogo. Entre eles, dois pequenos detalhes: trabalho e sobreviv\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas vou me restringir \u00e0 nossa experi\u00eancia pessoal. A hist\u00f3ria da filosofia no Ocidente pode nos ajudar a pensar sobre ela. De modo sucinto, h\u00e1 tr\u00eas grandes referenciais de felicidade em torno dos quais in\u00fameros pensadores se debru\u00e7aram por s\u00e9culos. Um primeiro \u00e9 o de pertencimento a uma coletividade. Os gregos n\u00e3o inventaram isso, mas \u00e9 certo que o cultivaram de um modo muito peculiar. No per\u00edodo \u00e1ureo das chamadas cidades-Estado gregas, exaltava-se a participa\u00e7\u00e3o nas decis\u00f5es coletivas em locais como Esparta, Tebas e Atenas. Deixando de lado as contradi\u00e7\u00f5es do mundo grego, podemos dizer que esse ideal ficou marcado em nosso arqu\u00e9tipo de vida feliz: situar-se em um projeto coletivo, contribuir para um fim social, fazer parte de uma ordem maior que nos integre.<\/p>\n\n\n\n<p>Um segundo ideal \u00e9 pr\u00f3prio da longa era crist\u00e3, que cobriu mais de um mil\u00eanio de hegemonia do lado de c\u00e1 do globo. O sentido de pertencimento tamb\u00e9m est\u00e1 ali, afinal, estamos falando de religi\u00e3o que \u00e9, via de regra, um agrupamento em torno de uma cren\u00e7a. Mas a contribui\u00e7\u00e3o mais importante do cristianismo para nossa civiliza\u00e7\u00e3o em termos de referencial de felicidade foi outra: a de prepara\u00e7\u00e3o para uma vida futura. A ideia de salva\u00e7\u00e3o, nesse caso entendida como situa\u00e7\u00e3o desejada ap\u00f3s a morte, povoou fortemente o imagin\u00e1rio social. N\u00e3o \u00e9 o caso de refletir aqui sobre os problemas que isso trouxe \u2013 e s\u00e3o muitos, mas sim de fincar mais um pilar dos nossos modelos de felicidade: algo que est\u00e1 al\u00e9m, l\u00e1 na frente, em um est\u00e1gio futuro. Restaria, no presente, preparar-se para ele, criar suas condi\u00e7\u00f5es de realiza\u00e7\u00e3o quando chegar a hora.<\/p>\n\n\n\n<p>O terceiro ideal desse esquema breve se encontra naquilo que se compreende como modernidade, isto \u00e9, o per\u00edodo do avan\u00e7o cient\u00edfico, da forma\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses como hoje conhecemos, da acelera\u00e7\u00e3o da t\u00e9cnica, da no\u00e7\u00e3o de progresso. Mas \u00e9 outra no\u00e7\u00e3o que nos interessa mais aqui: a de autonomia do indiv\u00edduo. Todas as fichas foram apostadas na esperan\u00e7a de liberdade. Um sujeito livre e emancipado, sem a vigil\u00e2ncia das institui\u00e7\u00f5es, sem o cerceamento das autoridades. Tal qual os dois anteriores, esse ideal tamb\u00e9m mostrou in\u00fameras contradi\u00e7\u00f5es. Mas o fato \u00e9 que ele demarcou seu territ\u00f3rio: passou a compor tamb\u00e9m nosso arqu\u00e9tipo de felicidade.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o se trata de indicar qual o melhor referencial, mas sim de compreender que os tr\u00eas nos atravessam o tempo todo. A depender da situa\u00e7\u00e3o pessoal ou da conjuntura hist\u00f3rica um ou outro modelo de felicidade se imp\u00f5e mais ou se articula com um segundo. Tal l\u00f3gica, por vezes, nos dilacera ou nos deixa insatisfeitos: se pertencemos muito fortemente a algo, sentimos falta de liberdade; se nos tornamos muito aut\u00f4nomos e independentes, falta-nos a coletividade; se apostamos muito na prepara\u00e7\u00e3o para a felicidade l\u00e1 na frente, ficamos insatisfeitos por n\u00e3o experiment\u00e1-la minimamente agora; se investimos em um projeto de felicidade imediato, temos d\u00favida se o fazemos sozinhos ou em grupo. Enfim, a ang\u00fastia segue. Tal estado de felicidade parece inating\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o h\u00e1 resposta f\u00e1cil para esse desafio. Mas h\u00e1 boas hip\u00f3teses. Uma delas est\u00e1 em buscar outros referenciais de felicidade que possam nos auxiliar. Isso, por\u00e9m, fica para outra ocasi\u00e3o. Por ora, gostaria de encerrar retomando a provoca\u00e7\u00e3o de M\u00e1rio Quintana para me perguntar e para perguntar a voc\u00ea, caro leitor: como est\u00e1 sua \u201chospedaria\u201d? Se voc\u00ea tiver um sonho igual ao de J\u00falia, em que precise escolher o que fazer na seu \u00faltimo dia, quais ser\u00e3o suas prioridades? O que voc\u00ea tem sido e feito \u00e9 o que continuaria a ser e a fazer ou \u00e9 prov\u00e1vel que suas contas n\u00e3o estejam em dia?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As crian\u00e7as adoram contar seus sonhos. E sua narrativa \u00e9 rica em detalhes. D\u00e1 pra sentir sabores, ver as cores, ouvir os sons! Na minha casa isso \u00e9 uma divers\u00e3o. Outro dia J\u00falia veio com um sonho bacana. Era noite e por algum motivo ela s\u00f3 teria mais um dia de vida &#8211; os sonhos [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":4658,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"rop_custom_images_group":[],"rop_custom_messages_group":[],"rop_publish_now":"initial","rop_publish_now_accounts":[],"rop_publish_now_history":[],"rop_publish_now_status":"pending","footnotes":""},"categories":[25,24],"tags":[1768,1767,42,683,75],"class_list":["post-4657","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-destaque","category-opiniao","tag-02-10-2020","tag-a-felicidade","tag-diario-tribuna","tag-jose-carlos-freire","tag-teofilo-otoni"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/4657"}],"collection":[{"href":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=4657"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/4657\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4659,"href":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/4657\/revisions\/4659"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/4658"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=4657"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=4657"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=4657"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}