{"id":5053,"date":"2020-10-16T09:25:34","date_gmt":"2020-10-16T12:25:34","guid":{"rendered":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=5053"},"modified":"2020-10-19T09:48:22","modified_gmt":"2020-10-19T12:48:22","slug":"a-felicidade-ii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=5053","title":{"rendered":"A Felicidade II"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Jos\u00e9-Carlos-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5054\" width=\"319\" height=\"234\" srcset=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Jos\u00e9-Carlos-1.jpg 700w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Jos\u00e9-Carlos-1-300x221.jpg 300w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Jos\u00e9-Carlos-1-80x60.jpg 80w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Jos\u00e9-Carlos-1-696x512.jpg 696w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Jos\u00e9-Carlos-1-571x420.jpg 571w\" sizes=\"(max-width: 319px) 100vw, 319px\" \/><figcaption><strong><em>Jos\u00e9 Carlos Freire &#8211; <\/em>Professor da UFVJM, Campus de Te\u00f3filo Otoni\/MG<\/strong><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Na cr\u00f4nica anterior propus uma reflex\u00e3o sobre tr\u00eas modelos de felicidade. Gostaria de falar de outros tr\u00eas, lan\u00e7ando m\u00e3o do mesmo esquema de divis\u00e3o hist\u00f3rica \u2013 o mundo antigo, o medieval e o moderno. Desta vez, por\u00e9m, farei o caminho inverso: partirei de nossos tempos, seguindo at\u00e9 a antiguidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Primeiramente, um modelo de m\u00faltiplas faces ao qual podemos chamar de ideal de vida comunit\u00e1ria alternativa. Desenvolveu-se, sobretudo, nos \u00faltimos sessenta anos. H\u00e1 uma variedade enorme de manifesta\u00e7\u00f5es que caberiam nesse referencial, desde os movimentos de contracultura nos anos 1970, passando pelas comunidades de cunho esot\u00e9rico, at\u00e9 as atuais express\u00f5es mais elaboradas como as agrovilas e ecovilas, muitas vezes oriundas de movimentos sociais.<\/p>\n\n\n\n<p>O que seria comum a essas modalidades? Independentemente do n\u00famero de pessoas, fam\u00edlias ou grupos que as comp\u00f5em, as comunidades carregam essa marca essencial: s\u00e3o alternativas. A qu\u00ea? Sobretudo ao modo de vida capitalista, com sua l\u00f3gica industrial, de competi\u00e7\u00e3o a qualquer custo e de destrui\u00e7\u00e3o do meio ambiente. Dessa resist\u00eancia decorrem aspectos pr\u00e1ticos como a produ\u00e7\u00e3o coletiva, o consumo de alimentos org\u00e2nicos, a educa\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as a partir de outros referenciais etc. Tentativas de forjar uma vida saud\u00e1vel e solid\u00e1ria, mesmo dentro de uma ordem social mais ampla que aponta para outra dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Quem se aproxima de tais comunidades ou simplesmente ouve falar sobre elas costuma ter uma rea\u00e7\u00e3o mais ou menos esperada: s\u00e3o ut\u00f3picas! Estou de acordo. A vida alternativa \u00e9 um desafio gigantesco. Mas convidaria o leitor a, pelo menos, reconsiderar sua vis\u00e3o sobre essas iniciativas. Elas nos dizem algo muito s\u00e9rio: ser\u00e1 que o modo de vida \u201cnormal\u201d, a que a maioria se ajusta, de fato funciona? Para onde rumamos com os preceitos que regem nossa vida social? Talvez seja o caso de ouvir com mais aten\u00e7\u00e3o a provoca\u00e7\u00e3o que nos vem da m\u00fasica \u201cBalada do Louco\u201d, de Arnaldo Baptista e Rita Lee: \u201cDizem que sou louco por pensar assim.\/ Se eu sou muito louco por eu ser feliz, \/mais louco \u00e9 quem me diz e n\u00e3o \u00e9 feliz\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Regredindo no tempo, poder\u00edamos nos deter em diversas manifesta\u00e7\u00f5es ao longo da chamada Idade M\u00e9dia que, de algum modo, destoaram da oficialidade crist\u00e3. Enquanto esta se orientava pelo medo do pecado e pela ideia de purifica\u00e7\u00e3o da alma, j\u00e1 que a felicidade somente se encontraria numa vida futura, muitos grupos se configuraram de outros modos. \u00c9 o caso dos mendicantes, cujas express\u00f5es mais conhecidas s\u00e3o os seguidores de Domingos Gusm\u00e3o e Francisco de Assis \u2013 para os cat\u00f3licos, \u201cS\u00e3o Domingos\u201d e \u201cS\u00e3o Francisco\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Tais grupos n\u00e3o estavam isentos de contradi\u00e7\u00f5es e nem da marca institucional romana que era dominante. Mas havia algo mais interessante. \u00c9 o caso de Francisco de Assis que recomendava pr\u00e1ticas como o desapego de riquezas e honrarias; o cultivo da fraternidade; a contempla\u00e7\u00e3o da natureza como co-irm\u00e3 do humano; e aquilo que, sem d\u00favida, era o mais prof\u00e9tico: num tempo de pessoas sisudas e prega\u00e7\u00f5es amea\u00e7adoras, Francisco falava da alegria de viver. \u00c9 curioso que hoje, oito s\u00e9culos depois, os valores defendidos por ele se mostrem ainda relevantes. Mais que o patrono da ecologia, Francisco de Assis \u00e9 uma esp\u00e9cie de arqu\u00e9tipo do s\u00e1bio, similar a outros m\u00edsticos do ocidente e do oriente.<\/p>\n\n\n\n<p>Por fim, recuando ainda mais, temos as escolas de vida que floresceram na Gr\u00e9cia antiga e posteriormente por toda a Roma. S\u00e3o chamados de \u201cescolas\u201d menos pelo conte\u00fado e mais pela forma de vida que procuram ensinar. Destaco uma entre elas que me parece muito atual: os epicuristas. O Jardim de Epicuro era o espa\u00e7o educativo em que o fil\u00f3sofo divulgava ideias como o cultivo das coisas simples, a valoriza\u00e7\u00e3o da amizade, a considera\u00e7\u00e3o do sofrimento e da dor como inerentes \u00e0 vida. Para ele todos deveriam se dedicar \u00e0 filosofia, porque ningu\u00e9m \u00e9 demasiado jovem ou velho para buscar a sa\u00fade do esp\u00edrito. A\u00ed est\u00e1 um preceito valioso: o car\u00e1ter terap\u00eautico do conhecimento. N\u00e3o essa ladainha que nos \u00e9 imposta o tempo todo de aprender mais para competir melhor. N\u00e3o. Para Epicuro, buscar o conhecimento \u00e9 almejar a sabedoria, o que implica em um movimento duplo: admirar-se com as coisas simples e belas e, simultaneamente, desassombrar-se do medo do futuro. Al\u00e9m disso, o cultivo da sabedoria \u00e9 uma maneira de superar ou suportar a hipocrisia das conven\u00e7\u00f5es sociais. Em s\u00edntese: uma maior tranquilidade da alma; hoje dir\u00edamos, quem sabe, um maior equil\u00edbrio interior.<\/p>\n\n\n\n<p>Para o epicurismo a vida pode se tornar prazerosa. N\u00e3o por ser um mar de rosas e perfeita. Ela continua dif\u00edcil e complicada, mas nossa postura diante dela se modifica: passamos a experimentar os momentos bons com mais profundidade e os momentos dif\u00edceis com maior serenidade. Assim, nosso \u00e2nimo fica predisposto a aproveitar os per\u00edodos de prosperidade, alegria e sa\u00fade; da mesma maneira como nos preparamos, sem ansiedade, para as fases de dificuldade, tristeza e doen\u00e7a. Isso tudo cercado de boas amizades e medita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e3o tr\u00eas referenciais de busca da felicidade. Nenhum deles, certamente, capaz de nos dar todas as respostas. Mas pelo menos nos oferecem caminhos. O leitor certamente ter\u00e1 encontrado pontos de contato entre as comunidades contempor\u00e2neas, as medievais e as antigas. Talvez pelo fato de que, apesar da for\u00e7a do modo de vida que impera em uma \u00e9poca, habita em n\u00f3s um anseio por autenticidade, por profundidade. Talvez haja, nas brechas do cotidiano e nas \u201cfalhas do sistema\u201d, trilhas poss\u00edveis de uma exist\u00eancia alternativa<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na cr\u00f4nica anterior propus uma reflex\u00e3o sobre tr\u00eas modelos de felicidade. Gostaria de falar de outros tr\u00eas, lan\u00e7ando m\u00e3o do mesmo esquema de divis\u00e3o hist\u00f3rica \u2013 o mundo antigo, o medieval e o moderno. Desta vez, por\u00e9m, farei o caminho inverso: partirei de nossos tempos, seguindo at\u00e9 a antiguidade. 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