{"id":5498,"date":"2020-10-30T10:21:06","date_gmt":"2020-10-30T13:21:06","guid":{"rendered":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=5498"},"modified":"2020-10-30T10:21:08","modified_gmt":"2020-10-30T13:21:08","slug":"os-limites","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=5498","title":{"rendered":"Os limites"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Jos\u00e9-Carlos-2.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5500\" width=\"331\" height=\"243\" srcset=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Jos\u00e9-Carlos-2.jpg 700w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Jos\u00e9-Carlos-2-300x221.jpg 300w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Jos\u00e9-Carlos-2-80x60.jpg 80w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Jos\u00e9-Carlos-2-696x512.jpg 696w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Jos\u00e9-Carlos-2-571x420.jpg 571w\" sizes=\"(max-width: 331px) 100vw, 331px\" \/><figcaption><strong><em>Jos\u00e9 Carlos Freire &#8211; <\/em>Professor da UFVJM, Campus de Te\u00f3filo Otoni\/MG<\/strong><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Na minha casa havia um cata-vento. Ali\u00e1s, eram dois: o primeiro eu mesmo fiz com lata de \u00f3leo de cozinha. Era pequeno. Eu o coloquei no canto da varanda. Seu eixo era de refil de caneta e funcionava bem. Crian\u00e7a, a gente costuma sobrevalorizar a pr\u00f3pria capacidade. Pensando bem, ele n\u00e3o era t\u00e3o bom assim. Meu pai construiu o segundo cata-vento. Ele percebeu que eu me havia interessado pelo assunto. Pegou uma h\u00e9lice de motor usado e a adaptou a um eixo de rolim\u00e3.<\/p>\n\n\n\n<p>Ficou bem feito, como todas suas inven\u00e7\u00f5es. Foi colocado no poste em frente \u00e0 casa. Por ser mais alto, ele rodava mais. Com o passar dos dias s\u00f3 ficou o grande: meu pequeno cata-vento enferrujou. Reconheci minha limita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu gostava de ficar olhando o cata-vento. Ora lento, ora r\u00e1pido e imponente, seu movimento me fazia viajar pelas regi\u00f5es de mim mesmo. Depois nos mudamos para a cidade e do cata-vento s\u00f3 ficou a lembran\u00e7a. Mas ainda os admiro. Cata-ventos s\u00e3o precisos: cumprem aquilo para o qual foram feitos. Os gregos antigos chamavam isso de &#8220;excel\u00eancia&#8221;: o ato de algo ou algu\u00e9m realizar com maior precis\u00e3o poss\u00edvel aquilo que lhe \u00e9 pr\u00f3prio. Pois bem, a excel\u00eancia dos cata-ventos seria esta: acompanhar o vento. N\u00e3o se preocupam em rodar ou em parar. Apenas rodam ou param.<\/p>\n\n\n\n<p>Tenho vontade de aprender com eles tal ci\u00eancia: fazer aquilo que me \u00e9 pr\u00f3prio. Mas o que seria? Para falar a verdade ainda n\u00e3o sei. At\u00e9 porque esse referencial cl\u00e1ssico segundo o qual tudo e todos t\u00eam seu papel definido no universo j\u00e1 n\u00e3o cola mais. Hoje, com base em outras vis\u00f5es, sabemos que nossa exist\u00eancia \u00e9 constru\u00edda a cada dia. Estamos sempre mudando. O fato \u00e9 que, pelo menos, j\u00e1 sei de v\u00e1rias coisas para as quais n\u00e3o \u201cfui feito\u201d. \u00c9 um bom come\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p>Nietzsche tinha uma formula\u00e7\u00e3o interessante para um bom projeto de vida: tornar-se o que se \u00e9. Novamente, n\u00e3o se trata de encontrar uma ess\u00eancia preestabelecida, como se cada pessoa nascesse com um roteiro, devendo apenas descobri-lo. O que o fil\u00f3sofo propunha estava mais pr\u00f3ximo da ideia de autenticidade. Ajustar as a\u00e7\u00f5es, os afetos e as ideias \u00e0quilo que nos configura em nossa trajet\u00f3ria pessoal e n\u00e3o o contr\u00e1rio: praticar a\u00e7\u00f5es, cultivar afetos e ideias que nos s\u00e3o impostos ou que nos tornem estranhos a n\u00f3s mesmos. Numa palavra: uma vida autoral.<\/p>\n\n\n\n<p>No c\u00e9lebre romance Dom Quixote h\u00e1 algo interessante sobre isso. Miguel de Cervantes nos leva a acompanhar o fidalgo mudado em cavaleiro, tendo ao seu lado um lavrador que se transforma em escudeiro. As aventuras de Dom Quixote e Sancho Pan\u00e7a permitem as mais diversas possibilidades de reflex\u00e3o. Gostaria de apontar uma: a ideia de limite. De modo geral, o romance todo \u00e9 uma grande discuss\u00e3o sobre limites. Desde a hist\u00f3ria em si \u2013 uma vez que o protagonista deseja refundar um modelo moral e social que historicamente j\u00e1 n\u00e3o cabe \u2013 at\u00e9 uma dimens\u00e3o mais profunda: o limite dos sonhos imposto pela dura realidade. Por isso a engenhosa constru\u00e7\u00e3o do autor nos leva a um sentimento duplo: rimos de Quixote e, ao mesmo tempo, torcemos por ele.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas h\u00e1 uma cena especial que merece destaque. Quando Dom Quixote e Sancho Pan\u00e7a se encontram com um duque e uma duquesa, na segunda metade do romance. Sabendo das loucuras do nobre cavaleiro e de sua promessa feita a Sancho de lhe dar o governo de uma ilha, o casal, \u00e1vido por fazer tro\u00e7a dos visitantes, inventa um enredo enganoso, possibilitando que o escudeiro seja nomeado governador da ilha Barataria. \u00c9 o momento em que Sancho ganha maior destaque na saga. Parte dos moradores conhece a farsa, parte n\u00e3o. Ocorre que o \u201cgoverno\u201d, que dura apenas dez dias, surpreende at\u00e9 aqueles que sabem do teatro. Sancho se mostra capaz de unir o saber popular de simples lavrador ao of\u00edcio de governar um povo. Mas o aumento das dificuldades e o estouro de uma guerra \u2013 tamb\u00e9m falsa \u2013 levam Sancho a um duro balan\u00e7o de sua jornada at\u00e9 ali. Ele, que desde o dia em que decidiu seguir os passos de Dom Quixote sonhava em conquistar o poder de uma ilha, agora admite que isto est\u00e1 al\u00e9m de suas condi\u00e7\u00f5es: \u201cN\u00e3o nasci para ser governador, nem para defender ilhas ou cidades contra inimigos que as queiram assaltar. Melhor entendo eu de arar e cavar, podar e plantar as vinhas, que de fazer leis ou defender prov\u00edncias e reinos\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A aparente derrota pode ser vista, na verdade, como grande conquista. Ali\u00e1s, duplamente: Sancho provou para si e para os demais, grande habilidade em diversos momentos do governo; em segundo lugar, mostrou-se s\u00e1bio por reconhecer seus limites. Seu retorno \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de escudeiro \u2013 que se articula diretamente com a volta posterior da dupla para casa \u2013 pode ser visto como li\u00e7\u00e3o de reconhecimento da pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o. Sancho tornou-se o que era.<\/p>\n\n\n\n<p>O leitor mais jovem poder\u00e1 achar essa interpreta\u00e7\u00e3o fatalista. Eu creio que n\u00e3o. Porque n\u00e3o se trata de retorno ao mesmo ponto: houve uma jornada, uma viagem, um aprendizado. Se Sancho n\u00e3o conservou o governo da ilha, ao menos agora governa melhor a si mesmo. O que, em termos filos\u00f3ficos, \u00e9 muita coisa! Conhecer-se melhor, reconhecer os limites: um desafio para todos n\u00f3s. N\u00e3o se trata de abandonar os sonhos, os desejos, os projetos, mas de ajust\u00e1-los \u00e0s condi\u00e7\u00f5es reais. O nome disso n\u00e3o \u00e9 fraqueza, mas sim sabedoria.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na minha casa havia um cata-vento. Ali\u00e1s, eram dois: o primeiro eu mesmo fiz com lata de \u00f3leo de cozinha. Era pequeno. Eu o coloquei no canto da varanda. Seu eixo era de refil de caneta e funcionava bem. Crian\u00e7a, a gente costuma sobrevalorizar a pr\u00f3pria capacidade. 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