{"id":5793,"date":"2020-11-12T08:59:23","date_gmt":"2020-11-12T11:59:23","guid":{"rendered":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=5793"},"modified":"2020-11-12T08:59:24","modified_gmt":"2020-11-12T11:59:24","slug":"a-transitoriedade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=5793","title":{"rendered":"A transitoriedade"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Jos\u00e9-Carlos.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5794\" width=\"333\" height=\"245\" srcset=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Jos\u00e9-Carlos.jpg 700w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Jos\u00e9-Carlos-300x221.jpg 300w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Jos\u00e9-Carlos-80x60.jpg 80w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Jos\u00e9-Carlos-696x512.jpg 696w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Jos\u00e9-Carlos-571x420.jpg 571w\" sizes=\"(max-width: 333px) 100vw, 333px\" \/><figcaption><strong>Jos\u00e9 Carlos Freire &#8211; Professor da UFVJM, Campus de Te\u00f3filo Otoni\/MG<\/strong><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>\u201cUm dia sobre n\u00f3s tamb\u00e9m \/ vai cair o esquecimento \/ como a chuva no telhado&#8230;\u201d. \u00c9 assim que Paulo Leminski, impiedosamente, define uma dimens\u00e3o de nossa vida. Sempre foi fecundo o di\u00e1logo entre filosofia e literatura. Por vezes os textos liter\u00e1rios chegam mais r\u00e1pido, e sem desvios, a verdades que o fil\u00f3sofo demora a alcan\u00e7ar. No caso do Brasil, pa\u00eds em que as Universidades e um esbo\u00e7o de sistema de ensino somente se constitu\u00edram no s\u00e9culo XX, \u00e9 muito comum encontrarmos na literatura elabora\u00e7\u00f5es sobre o sentido da vida, a raz\u00e3o de ser das coisas e outras inquieta\u00e7\u00f5es que s\u00e3o pr\u00f3prias da filosofia.<\/p>\n\n\n\n<p>Seremos esquecidos. Sim, caro leitor. Voc\u00ea, eu, todos n\u00f3s. Se estiv\u00e9ssemos para fechar um ano menos emblem\u00e1tico que o atual, poder\u00edamos falar de outras coisas. Mas a dureza do nosso tempo exige que tratemos de aspectos nem sempre t\u00e3o agrad\u00e1veis, o que n\u00e3o \u00e9 a primeira vez que ocorre nesta modesta coluna. A doen\u00e7a, a finitude, a morte. Tudo isso tem tomado nossas preocupa\u00e7\u00f5es de forma muito intensa e eu diria que, apesar do desconforto de pensar nisso, \u00e9 saud\u00e1vel que o fa\u00e7amos. Pelo menos de forma equilibrada.<\/p>\n\n\n\n<p>O bel\u00edssimo filme de anima\u00e7\u00e3o \u201cCoco\u201d (2017) tem como tema o par morte-mem\u00f3ria. No Brasil ganhou o nome \u201cViva:&nbsp; A vida \u00e9 uma festa\u201d. Se voc\u00ea n\u00e3o o assistiu, recomendo muito. \u00c9 uma linda hist\u00f3ria que tem como refer\u00eancia a tradicional celebra\u00e7\u00e3o do Dia dos Mortos no M\u00e9xico, comemorado no dia 2 de novembro, assim como nosso Dia de Finados. Por\u00e9m, diferentemente da tradi\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica, na qual se enfatiza a dor da saudade, com a visita aos cemit\u00e9rios marcada invariavelmente pela como\u00e7\u00e3o, o \u201cD\u00eda de los Muertos\u201d \u00e9 festejado com comida, m\u00fasica e outros elementos que lembrem os falecidos. Assim, as crian\u00e7as desde cedo aprendem n\u00e3o s\u00f3 a valorizar o passado, mas tamb\u00e9m o fato de que um dia morrer\u00e3o. N\u00e3o cultivam a tristeza, mas a beleza de viver.<\/p>\n\n\n\n<p>Por quanto tempo existiremos? A mensagem do filme \u00e9 cristalina: o quanto durar nossa exist\u00eancia biol\u00f3gica e, depois da morte, os anos ou d\u00e9cadas nos quais algu\u00e9m se recordar de n\u00f3s. E depois? Cair\u00e1 sobre n\u00f3s o esquecimento. \u00c9 certo que a r\u00e9gua de Leminski n\u00e3o vai se aplicar a ele, nem a tantos artistas e figuras que marcaram a hist\u00f3ria de uma regi\u00e3o, de um pa\u00eds ou universalmente. Eles durar\u00e3o mais. Quanto a n\u00f3s, pobres mortais, grande massa de bilh\u00f5es de pessoas que n\u00e3o deixar\u00e3o grandes feitos, nem est\u00e1tuas, nem obras art\u00edsticas relevantes, ser\u00e1 bem diferente. Nossa dura\u00e7\u00e3o p\u00f3s-morte ser\u00e1 garantida apenas pelos que de n\u00f3s se lembrarem. E quando o \u00faltimo desses morrer ser\u00e1 a derradeira gota de chuva no telhado&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o vejo problema nisso. Ali\u00e1s, reconhecer o jogo da vida \u00e9 uma atitude que nos faz mais livres, mais cientes do que de fato somos. P\u00f3 de estrelas. A dificuldade est\u00e1 em ajustar desejo e possibilidade. Gostar\u00edamos de ser eternos. A no\u00e7\u00e3o de eternidade \u00e9 bonita. Entre outras fontes, chegou-nos pela heran\u00e7a judaico-crist\u00e3. Pode-se dizer que ela consiste no entendimento de que o universo, que \u00e9 passageiro, est\u00e1 assentado sobre bases que n\u00e3o passam. \u00c9 uma ideia tranquilizadora, uma vez que a vida biol\u00f3gica de cada um de n\u00f3s seria apenas uma cena de um filme maior. Nesse caso, um filme que n\u00e3o tem fim.<\/p>\n\n\n\n<p>Ser\u00e1 assim? N\u00e3o cabe \u00e0 filosofia normatizar a cren\u00e7a de ningu\u00e9m. Ela trata da vida concreta e suas nuan\u00e7as, n\u00e3o do sobrenatural. Mas \u00e9 seu papel fazer a cr\u00edtica das ideias religiosas, sobretudo quando estas se mostram incompat\u00edveis com princ\u00edpios humanit\u00e1rios fundamentais. O que sugiro aqui \u00e9 algo bem menos ambicioso: o problema de se internalizar o eterno no transit\u00f3rio. Explico-me. Por estarmos habituados \u00e0 no\u00e7\u00e3o de eternidade, \u00e9 comum que a projetemos naquilo que \u00e9 passageiro. \u00c9 assim que formamos ideias simples, mas muito eficientes como a \u201cvoca\u00e7\u00e3o profissional\u201d, o \u201clugar em que viverei at\u00e9 o fim\u201d, a \u201cpessoa da minha vida\u201d. Sem falar no \u201cfelizes para sempre\u201d dos contos, filmes e novelas. Como se houvesse a garantia de que algo jamais acabar\u00e1. Ocorre que esta expectativa n\u00e3o bate com a realidade. Em nossa jornada vamos experimentando in\u00fameros fechamentos de ciclo, um ap\u00f3s outro; o que ontem parecia eterno hoje \u00e9 p\u00e1gina virada. \u00c9 o of\u00edcio do tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>No campo espec\u00edfico das rela\u00e7\u00f5es afetivas, que s\u00e3o ora nosso abrigo em meio \u00e0 tempestade, ora a pr\u00f3pria tempestade, a viv\u00eancia da transitoriedade \u00e9 um imenso desafio. Novamente \u00e9 a literatura que capta isso de forma brilhante. O poema \u201cSoneto da fidelidade\u201d de Vin\u00edcius de Moraes \u00e9 muito usado no in\u00edcio dos relacionamentos como promessa de amor. E ele \u00e9. Mas deveria ser tomado tamb\u00e9m em sua dimens\u00e3o menos simp\u00e1tica: se os primeiros versos s\u00e3o sincera express\u00e3o de um sentimento que se pretende infinito, os \u00faltimos demonstram a consci\u00eancia de que tudo que est\u00e1 sob o sol \u00e9 passageiro, \u201cposto que \u00e9 chama\u201d. N\u00e3o h\u00e1 nada que lembre eternidade na express\u00e3o \u201c&#8230;que seja infinito enquanto dure\u201d. H\u00e1, sim o desejo de estar com aquela pessoa \u201cem cada v\u00e3o momento\u201d, o tempo que for poss\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o conhe\u00e7o muito dos ritos religiosos de casamento. O que sei \u00e9 que no catolicismo h\u00e1 o momento em que o casal faz as juras de amor. Eis a\u00ed uma boa proposta a ser encaminhada ao Papa para se atualizar o rito do casamento: que ele tenha como refer\u00eancia o poema do Vin\u00edcius.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cUm dia sobre n\u00f3s tamb\u00e9m \/ vai cair o esquecimento \/ como a chuva no telhado&#8230;\u201d. \u00c9 assim que Paulo Leminski, impiedosamente, define uma dimens\u00e3o de nossa vida. Sempre foi fecundo o di\u00e1logo entre filosofia e literatura. Por vezes os textos liter\u00e1rios chegam mais r\u00e1pido, e sem desvios, a verdades que o fil\u00f3sofo demora a [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":5794,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_editorskit_title_hidden":false,"_editorskit_reading_time":0,"_editorskit_is_block_options_detached":false,"_editorskit_block_options_position":"{}","rop_custom_images_group":[],"rop_custom_messages_group":[],"rop_publish_now":"initial","rop_publish_now_accounts":[],"rop_publish_now_history":[],"rop_publish_now_status":"pending","footnotes":""},"categories":[25,24],"tags":[2110,2109,42,683,1120,75,867],"class_list":["post-5793","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-destaque","category-opiniao","tag-12-11-2020","tag-a-transitoriedade","tag-diario-tribuna","tag-jose-carlos-freire","tag-nordeste-de-minas","tag-teofilo-otoni","tag-vale-do-mucuri"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/5793"}],"collection":[{"href":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=5793"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/5793\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5795,"href":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/5793\/revisions\/5795"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/5794"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=5793"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=5793"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=5793"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}