{"id":621,"date":"2020-06-17T22:34:12","date_gmt":"2020-06-18T01:34:12","guid":{"rendered":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=621"},"modified":"2020-06-17T22:34:13","modified_gmt":"2020-06-18T01:34:13","slug":"guerra-ou-crise-sanitaria-o-lugar-das-mulheres-em-tempos-de-pandemia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=621","title":{"rendered":"Guerra ou crise sanit\u00e1ria? O \u201clugar\u201d das mulheres em tempos de pandemia"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Juliana-Lemos.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-622\" width=\"193\" height=\"193\" srcset=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Juliana-Lemos.jpg 515w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Juliana-Lemos-300x300.jpg 300w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Juliana-Lemos-150x150.jpg 150w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Juliana-Lemos-420x420.jpg 420w\" sizes=\"(max-width: 193px) 100vw, 193px\" \/><figcaption><strong>Juliana Lemes da Cru<\/strong>z<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Em uma batalha, os combatentes alertados do perigo n\u00e3o aguardam a morte, porque se protegem, guardam a si e aos seus. Para derrotarem o inimigo, na condu\u00e7\u00e3o da tropa, o comandante precisa conhecer o terreno onde pisa e seu oponente, al\u00e9m do potencial de seu pr\u00f3prio ex\u00e9rcito, do ex\u00e9rcito alheio, e tamb\u00e9m os pontos fracos de ambos.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso, o ditado; \u201cguerra avisada n\u00e3o mata soldado\u201d. Os bons combatentes sabem que em uma luta, as armas precisam ser proporcionais \u00e0 batalha \u00e0 frente. E sabe bem que se o inimigo \u00e9 desconhecido, n\u00e3o ser\u00e1 poss\u00edvel derrot\u00e1-lo na for\u00e7a. Assim, a melhor estrat\u00e9gia \u00e9 o recuo. Qualquer que seja a batalha, o \u201cinimigo\u201d n\u00e3o deve ser subestimado. \u00c9 preciso conhec\u00ea-lo para elimin\u00e1-lo. Do contr\u00e1rio, ele quem provocar\u00e1 baixas no seu ex\u00e9rcito.<\/p>\n\n\n\n<p>A insist\u00eancia em tratar a crise sanit\u00e1ria e humanit\u00e1ria que vivemos diante da pandemia de COVID-19 como uma esp\u00e9cie de \u201cguerra\u201d, n\u00e3o \u00e9 por acaso. O cen\u00e1rio vivido nos hospitais ilustra os campos abertos em contexto de batalha, com pouqu\u00edssimos recursos dispon\u00edveis que sirvam de escudo frente aos disparos. N\u00e3o \u00e0 toa, os hospitais constru\u00eddos para a emerg\u00eancia de sa\u00fade p\u00fablica s\u00e3o chamados de hospitais de \u201ccampanha\u201d, denomina\u00e7\u00e3o que se associa aos cen\u00e1rios de guerra. A diferen\u00e7a \u00e9 que numa guerra armada, geralmente, o ataque \u00e9 vis\u00edvel e a resposta imediata. Numa crise sanit\u00e1ria, o or\u00e1culo seria a ci\u00eancia, pois o ataque, por vezes, s\u00f3 \u00e9 percebido quando o terreno j\u00e1 est\u00e1 dominado pela doen\u00e7a, e sua solu\u00e7\u00e3o exige estudos e tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>O mundo tornou-se um campo de batalha, especialmente para as mulheres que s\u00e3o profissionais da sa\u00fade, mais vulner\u00e1veis \u00e0 contamina\u00e7\u00e3o pelo v\u00edrus, e por vezes, tratadas como um oponente a ser combatido. Segundo Melo e Thom\u00e9, o cen\u00e1rio de guerra, \u201cPor excel\u00eancia (&#8230;) \u00e9 um campo narrativo no qual os homens transitam com naturalidade, enquanto \u00e0s mulheres lhes resta papel secund\u00e1rio ou de obedi\u00eancia \u00e0s leis maiores\u201d. As cientistas ainda destacam que o papel da mulher ficou por muito tempo associado \u00e0 tarefa exclusiva de reprodu\u00e7\u00e3o da vida. Sendo que a ida delas \u00e0 guerra poderia comprometer o destino da esp\u00e9cie humana. Essa atribui\u00e7\u00e3o de \u201cdar a luz\u201d limitou as mulheres em determinados cen\u00e1rios, e fez afast\u00e1-las da participa\u00e7\u00e3o na vida pol\u00edtica da sociedade.<\/p>\n\n\n\n<p>A analogia da crise sanit\u00e1ria, que vivemos h\u00e1 alguns meses, \u00e0 guerra, recorta o \u201clugar do homem\u201d, pois o espa\u00e7o de guerra nunca foi um lugar socialmente entendido como \u201clugar de mulheres\u201d. Assim, suas demandas permanecem secund\u00e1rias e negligenciadas. As mulheres comp\u00f5em 63% dos campos de trabalho no setor da sa\u00fade do Brasil; nos \u00faltimos anos engrossavam o bloco dos trabalhadores informais; representam 45% das chefias de fam\u00edlia e est\u00e3o na linha de frente dos servi\u00e7os essenciais como enfermeiras, t\u00e9cnicas, faxineiras, assistentes sociais e m\u00e9dicas.<\/p>\n\n\n\n<p>No mundo, elas representam 70% dos trabalhadores da ponta nessa pandemia. No mesmo sentido, uma guerra remete ao arb\u00edtrio de um comandante e aos seus n\u00facleos de decis\u00e3o, que deixam de fora vozes femininas. Os espa\u00e7os de poder onde as estrat\u00e9gias s\u00e3o definidas, geralmente, s\u00e3o compostos por homens, numa tomada de decis\u00e3o verticalizada, sem espa\u00e7o para contesta\u00e7\u00e3o externa ao grupo que se fechou em torno do chefe.<\/p>\n\n\n\n<p>A guerra, que aponta para a dire\u00e7\u00e3o de procedimentos e estrat\u00e9gias baseadas em disputas por territ\u00f3rio, ideias ou valores precisa ser diferenciada do contexto de crise sanit\u00e1ria, que remete \u00e0 condu\u00e7\u00e3o coordenada que priorize elementos que envolvam a solidariedade e a prote\u00e7\u00e3o da vida humana, diferente de uma disputa por poder. (Imagem \u2013 Fernanda Arueira, m\u00e9dica na linha de frente em Te\u00f3filo Otoni. Refer\u00eancias \u2013 Hildete Pereira de Melo e D\u00e9bora Thom\u00e9, texto &#8211; \u201cA pandemia de guerra dos homens\u201d, 2020. Dispon\u00edvel em <a href=\"https:\/\/fes-minismos.com\">https:\/\/fes-minismos.com<\/a>).<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Juliana Lemes da Cruz<\/strong>. Doutoranda em Pol\u00edtica Social \u2013 UFF. Pesquisadora GEPAF\/UFVJM. Coordenadora do Projeto MLV. Contato: <a href=\"mailto:julianalemes@id.uff.br\">julianalemes@id.uff.br<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em uma batalha, os combatentes alertados do perigo n\u00e3o aguardam a morte, porque se protegem, guardam a si e aos seus. 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