{"id":6226,"date":"2020-11-27T08:43:21","date_gmt":"2020-11-27T11:43:21","guid":{"rendered":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=6226"},"modified":"2020-11-27T08:43:22","modified_gmt":"2020-11-27T11:43:22","slug":"o-medo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=6226","title":{"rendered":"O medo"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Jos\u00e9-Carlos-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-6227\" width=\"297\" height=\"218\" srcset=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Jos\u00e9-Carlos-1.jpg 700w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Jos\u00e9-Carlos-1-300x221.jpg 300w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Jos\u00e9-Carlos-1-80x60.jpg 80w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Jos\u00e9-Carlos-1-696x512.jpg 696w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Jos\u00e9-Carlos-1-571x420.jpg 571w\" sizes=\"(max-width: 297px) 100vw, 297px\" \/><figcaption><strong><em>Jos\u00e9 Carlos Freire<\/em>, Professor da UFVJM, Campus de Te\u00f3filo Otoni\/MG<\/strong><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Na ter\u00e7a-feira da \u00faltima semana, pr\u00f3ximo ao meio-dia, o c\u00e9u escureceu. Fen\u00f4meno t\u00edpico de final de primavera, uma grande nuvem se formou vindo do norte. \u00c9 um dos espet\u00e1culos mais lindos da natureza. Para mim, no entanto, a admira\u00e7\u00e3o frente a uma tempestade vem sempre misturada com o medo. \u00c9 assim desde a inf\u00e2ncia, em raz\u00e3o de uma situa\u00e7\u00e3o traum\u00e1tica na fam\u00edlia. Recordo-me que os conhecimentos b\u00e1sicos de ci\u00eancia natural me ajudaram. Aprendi um pouco do que eram os raios, sua forma\u00e7\u00e3o, seus efeitos. At\u00e9 mesmo a calcular sua prov\u00e1vel dist\u00e2ncia pelo intervalo entre o rel\u00e2mpago e o som do trov\u00e3o. E a\u00ed tinha meu prec\u00e1rio m\u00e9todo de administra\u00e7\u00e3o do medo.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas agora nem isso servia. Afinal, por que uma tempestade normal, por sinal nem t\u00e3o grande, incomodava-me de um modo diferente? Para piorar, a preocupa\u00e7\u00e3o com a seguran\u00e7a dos filhos. S\u00f3 pude pensar melhor quando a chuva serenou. Encontrei duas explica\u00e7\u00f5es. A primeira \u00e9 que a experi\u00eancia de paternidade\/maternidade nos fragiliza, inevitavelmente. Nossos medos diante de situa\u00e7\u00f5es diversas se somam ao medo do que elas podem causar aos pequenos.<\/p>\n\n\n\n<p>A segunda mereceu minha reflex\u00e3o mais demorada: h\u00e1 um contexto espec\u00edfico de pandemia que em graus distintos mexeu com todos n\u00f3s.&nbsp; N\u00e3o \u00e9 estranho que pesquisas indiquem o aumento da ansiedade e mesmo de doen\u00e7as mentais na popula\u00e7\u00e3o. O passar dos meses nos ajudou a encontrar uma rotina de conviv\u00eancia com o v\u00edrus. Adaptamo-nos. Por\u00e9m, como um lago subterr\u00e2neo que a plan\u00edcie n\u00e3o mostra, l\u00e1 est\u00e3o eles a correr em nossa subjetividade: os afetos. De que maneira os temos administrado? Em que medida falamos sobre eles ou os ignoramos?<\/p>\n\n\n\n<p>O medo. Nem de longe um tema novo. Para citar um per\u00edodo recente, todo o s\u00e9culo XX esteve marcado de cat\u00e1strofes, guerras e genoc\u00eddios. O s\u00e9culo atual n\u00e3o vai em dire\u00e7\u00e3o t\u00e3o distinta. Os efeitos s\u00e3o de toda ordem, bastando ver como, al\u00e9m da filosofia, autores da psicologia, da sociologia, da ci\u00eancia pol\u00edtica e de outras t\u00eam pensado sobre as \u00faltimas d\u00e9cadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Um nome que esteve na moda desde o final dos anos 1990 foi, sem d\u00favida, o do polon\u00eas Zygmunt Bauman (1925-2017), que cunhou a famosa express\u00e3o \u201cmodernidade l\u00edquida\u201d para se referir ao contexto de virada do s\u00e9culo XX para o XXI. Embora de forma\u00e7\u00e3o sociol\u00f3gica, seus textos foram se convertendo em ensaios reflexivos sobre a condi\u00e7\u00e3o humana na sociedade contempor\u00e2nea. Para ele, nosso temor diante da viol\u00eancia, das cat\u00e1strofes, das epidemias e das guerras gera uma busca ins\u00f3lita por seguran\u00e7a, por sofistica\u00e7\u00e3o, por prolongamento da vida etc. Se \u201cl\u00edquida\u201d se mostra a exist\u00eancia, tamb\u00e9m o medo, como \u00e1gua que invade a casa, ocupa todos os espa\u00e7os.<\/p>\n\n\n\n<p>Como todo autor de sucesso, Bauman atrai f\u00e3s e cr\u00edticos. Importa pouco isso. Cabe mais ver a pertin\u00eancia do que diz e creio que suas reflex\u00f5es s\u00e3o valiosas. \u00c9 certo que n\u00e3o se trata de uma descoberta te\u00f3rica ou de uma abordagem t\u00e3o original. Para ficar em um nome do lado de c\u00e1 do Atl\u00e2ntico, o uruguaio Eduardo Galeano (1940-2015) fez tamb\u00e9m uma brilhante s\u00edntese do mesmo contexto analisado por Bauman: \u201cO medo amea\u00e7a: se voc\u00ea ama, ter\u00e1 Aids; se fuma, ter\u00e1 c\u00e2ncer; se respira, ter\u00e1 polui\u00e7\u00e3o; se bebe, sofrer\u00e1 acidentes; se come, ter\u00e1 colesterol; se fala, ter\u00e1 desemprego; se caminha, ter\u00e1 viol\u00eancia; se pensa, ter\u00e1 ang\u00fastia; se duvida, ter\u00e1 loucura; se sente, ter\u00e1 solid\u00e3o\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>O conhecimento da hist\u00f3ria e a reflex\u00e3o s\u00e3o bons companheiros para qualquer situa\u00e7\u00e3o. Por isso, da breve sinaliza\u00e7\u00e3o feita \u00e9 poss\u00edvel tirar duas conclus\u00f5es. A primeira, menos animadora: o atual contexto de pandemia n\u00e3o cria um sentimento de medo, mas sim o intensifica. Ou seja, nosso temor frente ao v\u00edrus se junta a outros que j\u00e1 t\u00ednhamos. O que me ajuda a entender porque aquela tempestade de ter\u00e7a-feira me assustou tanto. Os medos v\u00e3o se empilhando.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas h\u00e1 uma segunda explica\u00e7\u00e3o, esta mais interessante: embora se apresente com caracter\u00edsticas peculiares, a atual pandemia \u00e9, n\u00e3o obstante as milhares de mortes e o comprometimento da sa\u00fade dos contaminados, uma situa\u00e7\u00e3o que ser\u00e1 superada, tal como outras foram. Saber disso n\u00e3o apaga nosso medo quanto ao futuro, mas nos ajuda a elabor\u00e1-lo melhor.<\/p>\n\n\n\n<p>Penso que a famosa classifica\u00e7\u00e3o das virtudes do velho Arist\u00f3teles ainda conserva validade. Sua ideia geral \u00e9 a do meio termo, evitando-se os excessos. Nesse sentido, o medo \u00e9 o polo oposto \u00e0 imprud\u00eancia. Entre um e outro est\u00e1 a virtude da coragem. Parece-me um bom indicativo para tempos de pandemia: n\u00e3o \u00e9 um bom caminho trocarmos o medo pela temeridade, fingindo que nada acontece e colocando em risco a sa\u00fade das pessoas que amamos. Isso nada tem de corajoso; est\u00e1 mais pr\u00f3ximo da irresponsabilidade. A supera\u00e7\u00e3o vir\u00e1 pela coragem, uma virtude que conserva parte do medo, como b\u00fassola que acusa o perigo; mas que o dosa com a ousadia de quem enfrenta, conscientemente, o mesmo perigo.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto escrevo estas linhas, chega a not\u00edcia da morte do g\u00eanio Diego Maradona, o \u201cmais humano dos deuses\u201d, segundo o mesmo Galeano. Das memor\u00e1veis cenas, aquela, uma das mais emblem\u00e1ticas da hist\u00f3ria do futebol. Copa de 1986. A Argentina, pa\u00eds rec\u00e9m-sa\u00eddo de uma sanguin\u00e1ria ditadura que imp\u00f4s o terror a toda uma gera\u00e7\u00e3o e, anos antes, derrotado pela Inglaterra na fat\u00eddica Guerra das Malvinas, agora enfrenta esse mesmo pa\u00eds nas quatro linhas. E Dieguito, de baixa estatura, faz erguer uma na\u00e7\u00e3o inteira na magia de seus p\u00e9s (e de sua m\u00e3o santa!). Naquele dia, Maradona nos ensinou que o medo se supera com a coragem. \u00c9 assim que enfrentamos os mais temidos advers\u00e1rios, seja no futebol, seja na pol\u00edtica, seja na luta pessoal com nossos traumas. \u00c9 assim que caminhos novos se abrem.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na ter\u00e7a-feira da \u00faltima semana, pr\u00f3ximo ao meio-dia, o c\u00e9u escureceu. Fen\u00f4meno t\u00edpico de final de primavera, uma grande nuvem se formou vindo do norte. \u00c9 um dos espet\u00e1culos mais lindos da natureza. 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