{"id":6718,"date":"2020-12-18T10:41:05","date_gmt":"2020-12-18T13:41:05","guid":{"rendered":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=6718"},"modified":"2020-12-21T12:01:52","modified_gmt":"2020-12-21T15:01:52","slug":"a-esperanca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=6718","title":{"rendered":"A Esperan\u00e7a"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Jos\u00e9-Carlos.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-6719\" width=\"353\" height=\"259\" srcset=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Jos\u00e9-Carlos.jpg 700w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Jos\u00e9-Carlos-300x221.jpg 300w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Jos\u00e9-Carlos-80x60.jpg 80w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Jos\u00e9-Carlos-696x512.jpg 696w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Jos\u00e9-Carlos-571x420.jpg 571w\" sizes=\"(max-width: 353px) 100vw, 353px\" \/><figcaption><strong><em>Jos\u00e9 Carlos Freire<\/em>, Professor da UFVJM, Campus de Te\u00f3filo Otoni\/MG<\/strong><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>O ano de 2020 vai se encerrando. Um ano dif\u00edcil, extenuante. Perdas de pessoas queridas, dificuldades diversas, ang\u00fastia, medo. N\u00e3o seria exagero se tom\u00e1ssemos tais elementos como destaques para nossa retrospectiva. No entanto, \u00e9 com outra chave que gostaria de encerrar o ano nesta coluna. Pretendo falar de esperan\u00e7a. Mas quero fugir do lugar comum dos votos de felicidade, das frases de cart\u00e3o, dos belos pensamentos que invadir\u00e3o em breve nossas caixas de mensagens.<\/p>\n\n\n\n<p>O final do ano \u00e9 tempo prop\u00edcio para proje\u00e7\u00f5es. Tra\u00e7amos planos, fazemos uma lista de coisas para o ano seguinte, prometemos mudan\u00e7as. Est\u00e1 perfeito. O desafio \u00e9 saber em que medida tais projetos se configuram como buscas reais ou meras fantasias. Al\u00e9m disso, h\u00e1 outro elemento mais decisivo em nosso tempo: o que esperar de um ano sobre o qual n\u00e3o conseguimos sequer ter ideia de como ser\u00e1?<\/p>\n\n\n\n<p>Vou recuar um pouco. Por que temos esperan\u00e7a? Por que gastamos tanta energia com um futuro imaginado? Dif\u00edcil dizer. Todos os seres transitam de um estado a outro, mudam com o tempo. N\u00e3o h\u00e1 estagna\u00e7\u00e3o na natureza. Mas o bicho humano quer mais. Celso Vi\u00e1fora sintetizou belamente isso em sua can\u00e7\u00e3o \u201c\u00c1gua do mar\u201d: \u201cEu n\u00e3o quero pouco: \/ s\u00f3 quero tudo, \/ pelo tempo todo,\/ pra todo mundo\u201d. A esse anseio profundo Ad\u00e9lia Prado chamou de \u201cfome\u201d. Um sentimento d\u00fabio, porque ao mesmo tempo que queremos saci\u00e1-la, de alguma forma desejamos que ela volte, para novamente buscar o alimento. Seus versos s\u00e3o certeiros: \u201cQuarenta anos: n\u00e3o quero faca nem queijo. Quero a fome.\u201d. N\u00f3s desejamos o desejo&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>O fil\u00f3sofo holand\u00eas Baruch Spinoza (1632-1677) dedicou-se ao tema dos afetos de forma rigorosa e demorada. Pontuo aqui apenas um ou outro elemento. De acordo com Spinoza, somos essencialmente desejo. Esse \u201cdesejo\u201d, por\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 o mero anseio por algo ou algu\u00e9m, mas sim um impulso constitutivo de nosso ser para sua conserva\u00e7\u00e3o ou crescimento. Como n\u00e3o somos isolados da natureza, e sim parte dela, seguimos sua ordem geral: um esfor\u00e7o permanente de preserva\u00e7\u00e3o, para aumentar nossa pot\u00eancia de agir e de ser. Para encurtar o caminho: quando esse impulso \u00e9 atendido, tornamo-nos mais alegres, mais potentes; quando n\u00e3o, \u00e9 a tristeza que nos toma.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso tudo para dizer que a esperan\u00e7a \u00e9 uma forma de alegria, s\u00f3 que antecipada na imagina\u00e7\u00e3o. \u00c9 um desejo de alegria que est\u00e1 por vir. Por isso \u00e9 fr\u00e1gil. O aumento de nossa pot\u00eancia de agir ainda n\u00e3o aconteceu, ele est\u00e1 projetado no futuro. Nesse sentido, se for reduzida \u00e0 mera espera passiva, a um estado de expectativa pura e simples, a esperan\u00e7a se transforma em lenitivo, em al\u00edvio apaziguador do presente por meio de uma proje\u00e7\u00e3o imagin\u00e1ria. Ficamos parados \u00e0 espera de um milagre. Por\u00e9m, se transformada em postura ativa a esperan\u00e7a nos potencializa, nos motiva a abrir caminhos. Colocamo-nos em movimento. Para dar um exemplo pessoal numa lembran\u00e7a que me vem, foi o que, intuitivamente, acabei fazendo no dia em que, com onze anos, disse \u00e0 minha m\u00e3e, na volta da escolinha rural, que queria continuar os estudos, ir para a cidade, conhecer o mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas \u00e9 preciso cautela. Eu poderia facilmente incorrer numa narrativa falsa da hist\u00f3ria para dar um tom solene: \u201cNaquele momento tracei um novo rumo para a fam\u00edlia!\u201d. N\u00e3o \u00e9 verdade. Por dois motivos b\u00e1sicos: primeiro, n\u00e3o temos o poder de causar as coisas apenas por antecip\u00e1-las na mente. Participamos de processos, engajamo-nos em algo, dedicamo-nos a um objetivo. Portanto, s\u00e3o a\u00e7\u00f5es \u2013 e n\u00e3o a mera vontade \u2013 que fazem com que as coisas aconte\u00e7am ou n\u00e3o. O segundo motivo est\u00e1 intimamente ligado ao primeiro: n\u00e3o estamos isolados. Ao chegar ao mundo o encontramos permeado de encontros e desencontros e, como quem sobe em um \u00f4nibus no centro da cidade, passamos a compor aquele complexo de rela\u00e7\u00f5es. De tal maneira que uma decis\u00e3o \u2013 por exemplo, a de uma crian\u00e7a que decide continuar seus estudos \u2013 n\u00e3o nasce do nada; \u00e9 fruto de motiva\u00e7\u00f5es que ela sequer imagina e que, na sequ\u00eancia, ser\u00e1 inclu\u00edda em uma trama altamente complexa de outras expectativas dos pais, fam\u00edlia, vizinhos, a sociedade toda. Sem falar nas quest\u00f5es materiais, nas implica\u00e7\u00f5es concretas de uma determinada decis\u00e3o, dinheiro, emprego etc.<\/p>\n\n\n\n<p>O que quero com esse racioc\u00ednio t\u00e3o complicado? Certamente n\u00e3o \u00e9 cansar o leitor, mas sim lembr\u00e1-lo de que: 1) por mais belos que sejam seus anseios, somente o fato de projet\u00e1-los na mente n\u00e3o indica que se realizar\u00e3o; 2) na tentativa de realizar seus objetivos para o pr\u00f3ximo ano, precisar\u00e1 considerar a trama de rela\u00e7\u00f5es, situa\u00e7\u00f5es, circunst\u00e2ncias e fatores diversos que n\u00e3o dependem de voc\u00ea.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas ent\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 sentido em ter esperan\u00e7a? N\u00e3o diria isso. Diria, recordando uma vez mais Spinoza, que ela \u00e9 um sentimento fr\u00e1gil, pois a incerteza tamb\u00e9m comparece no jogo. Onde h\u00e1 esperan\u00e7a h\u00e1 tamb\u00e9m o medo. Esperan\u00e7a \u00e9 desejo de realizar, conquistar algo, ser alguma coisa. O medo \u00e9 o seu reverso, pois n\u00e3o \u00e9 certo que realizaremos, conquistaremos ou seremos o que planejamos.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma posi\u00e7\u00e3o mais s\u00e1bia, portanto, seria aquela que reveste a esperan\u00e7a de uma profunda reflex\u00e3o cr\u00edtica. Primeiramente, buscar entender o que desejamos e porque desejamos. Ter a consci\u00eancia das motiva\u00e7\u00f5es de nossa esperan\u00e7a. Concomitantemente, avaliar as reais condi\u00e7\u00f5es de cumprimento daquilo para o qual nossa esperan\u00e7a aponta. \u00c9 preciso pensar o que \u00e9 necess\u00e1rio de esfor\u00e7o meu, em que medida depende n\u00e3o s\u00f3 de mim, mas de outros; de que forma \u00e9 vi\u00e1vel ou n\u00e3o; e, o mais importante de tudo, se \u00e9 mesmo um bem aquilo que anseio. Numa palavra, conhecer melhor minhas pr\u00f3prias a\u00e7\u00f5es e tamb\u00e9m a trama em que estou inserido, que \u00e9 sempre mais complexa do que eu consigo compreender.<\/p>\n\n\n\n<p>Tudo isso n\u00e3o garante em nada uma maior efici\u00eancia no cumprimento de nossos sonhos. S\u00f3 haveria receita de sucesso se o mundo respondesse ao nosso apelo ou se viv\u00eassemos isolados. Posto que n\u00e3o \u00e9 assim, a \u00fanica vantagem em revestir nossa esperan\u00e7a de reflex\u00e3o cr\u00edtica \u00e9 que, seja qual for o resultado, teremos avan\u00e7ado um pouco mais na capacidade de orientar nossas a\u00e7\u00f5es e sentimentos, conhecer melhor quem somos, deixando de esperar, passivamente, que o mundo e a vida nos sejam favor\u00e1veis.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o h\u00e1 mal algum nas frases feitas de virada de ano, nos desejos de coisas boas para quem est\u00e1 ao nosso lado. Por\u00e9m, \u00e9 tudo ainda express\u00e3o do lado fr\u00e1gil da esperan\u00e7a. Voltando \u00e0 quest\u00e3o: o que esperar do pr\u00f3ximo ano? Claro que devemos querer o melhor, mas o decisivo mesmo se d\u00e1 aqui e agora. Que venha 2021. Antes dele, por\u00e9m, temos ainda um peda\u00e7o de 2020 para viver. Fa\u00e7amos dele o melhor poss\u00edvel.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O ano de 2020 vai se encerrando. Um ano dif\u00edcil, extenuante. Perdas de pessoas queridas, dificuldades diversas, ang\u00fastia, medo. N\u00e3o seria exagero se tom\u00e1ssemos tais elementos como destaques para nossa retrospectiva. No entanto, \u00e9 com outra chave que gostaria de encerrar o ano nesta coluna. Pretendo falar de esperan\u00e7a. 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