{"id":6752,"date":"2020-12-21T12:01:24","date_gmt":"2020-12-21T15:01:24","guid":{"rendered":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=6752"},"modified":"2020-12-21T12:01:25","modified_gmt":"2020-12-21T15:01:25","slug":"cicatrizes-da-alma-as-marcas-da-violencia-sofrida-e-superada-por-gislane-braun","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=6752","title":{"rendered":"Cicatrizes da alma:  as marcas da viol\u00eancia sofrida e superada por Gislane Braun"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/unnamed-6.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-6753\" width=\"291\" height=\"324\" srcset=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/unnamed-6.jpg 650w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/unnamed-6-269x300.jpg 269w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/unnamed-6-376x420.jpg 376w\" sizes=\"(max-width: 291px) 100vw, 291px\" \/><figcaption><strong><strong>Juliana Lemes da Cruz<\/strong>. Doutoranda em Pol\u00edtica Social \u2013 UFF. Pesquisadora GEPAF\/UFVJM. Coordenadora do Projeto MLV. Contato: <a href=\"mailto:julianalemes@id.uff.br\">julianalemes@id.uff.br<\/a><\/strong><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery columns-2 is-cropped wp-block-gallery-1 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\"><ul class=\"blocks-gallery-grid\"><li class=\"blocks-gallery-item\"><figure><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"400\" height=\"466\" src=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Fase-de-conflitos.jpg\" alt=\"\" data-id=\"6754\" data-full-url=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Fase-de-conflitos.jpg\" data-link=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?attachment_id=6754\" class=\"wp-image-6754\" srcset=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Fase-de-conflitos.jpg 400w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Fase-de-conflitos-258x300.jpg 258w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Fase-de-conflitos-361x420.jpg 361w\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><figcaption class=\"blocks-gallery-item__caption\"><strong>Fase de conflitos<\/strong><\/figcaption><\/figure><\/li><li class=\"blocks-gallery-item\"><figure><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"400\" height=\"608\" src=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Livre-de-viol\u00eancia.jpg\" alt=\"\" data-id=\"6755\" data-full-url=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Livre-de-viol\u00eancia.jpg\" data-link=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?attachment_id=6755\" class=\"wp-image-6755\" srcset=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Livre-de-viol\u00eancia.jpg 400w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Livre-de-viol\u00eancia-197x300.jpg 197w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Livre-de-viol\u00eancia-276x420.jpg 276w\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><figcaption class=\"blocks-gallery-item__caption\"><strong>Livre de viol\u00eancia<\/strong><\/figcaption><\/figure><\/li><\/ul><\/figure>\n\n\n\n<p>Mais uma vez, retomo este tema que parece sem fim. A cada conversa com mulheres que romperam ciclos violentos, novas hist\u00f3rias de reconhecimento dos abusos sofridos e de supera\u00e7\u00e3o. Com a devida autoriza\u00e7\u00e3o para exposi\u00e7\u00e3o de sua hist\u00f3ria e imagens a ela relacionadas, descrevo, a seguir, o relato de vida da Gislane Braun. Ela \u00e9 m\u00e3e de dois filhos adolescentes, nascida no munic\u00edpio de Te\u00f3filo Otoni, \u00e9 taxista, confeiteira e artes\u00e3. Considera-se uma mulher livre de viol\u00eancia e independente.<\/p>\n\n\n\n<p>Na inf\u00e2ncia, conviveu com a viol\u00eancia masculina materializada na postura do pai. Sua m\u00e3e, calada, suportou as agress\u00f5es at\u00e9 a morte dele. Antes disso, Gislane chegou a fugir de casa e procurar ajuda de pessoas que n\u00e3o conhecia. Ap\u00f3s a fuga das situa\u00e7\u00f5es violentas, Gislane, com 19 anos, conheceu seu ex-companheiro e se instalou em sua casa. \u201c[&#8230;] ele me cativou dizendo que ali ningu\u00e9m iria me fazer nenhum mal. Eu n\u00e3o o amava, mas, com o carinho, aten\u00e7\u00e3o e cuidado que ele tinha comigo acabei me apaixonando [&#8230;] isso gerou uma confus\u00e3o de sentimentos, pois era algo que eu procurava e n\u00e3o tinha. No in\u00edcio, tudo ia muito bem, me sentia amada, respeitada, querida, ele era tudo o que eu desejava ou aparentemente achava que era. Mas, a\u00ed, come\u00e7aram algumas brigas e discuss\u00f5es. Entramos num ciclo vicioso, vai&#8230;volta. O ci\u00fame aumentava cada dia mais e com ele, as brigas sem motivo\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Gislane permaneceu 14 anos no conv\u00edvio marital com seu ex-companheiro. A primeira agress\u00e3o f\u00edsica teria ocorrido na fazenda que eles moravam, a primog\u00eanita do casal tinha apenas 9 meses de vida. \u201c[&#8230;] ele ficou t\u00e3o agressivo comigo naquele dia que me bateu de chinelo enquanto eu amamentava minha beb\u00ea deitada no sof\u00e1. Eu s\u00f3 tentava proteger minha filha dos golpes que ele dava, fiquei muito machucada, com as pernas roxas. Eu coloquei minha beb\u00ea no colo da empregada e sa\u00ed correndo pro meio do mato, no escuro. Ele veio atr\u00e1s de mim com a arma na m\u00e3o, disparou para cima, pra ver se eu sa\u00eda correndo, pra saber onde eu estava. Orei a Deus e pedi que protegesse minha filha. Andei 20 km a p\u00e9, toda machucada, at\u00e9 chegar na Delegacia. Fiz B.O e exame de corpo de delito\u201d. A situa\u00e7\u00e3o poderia ter tido um fim naquela noite, mas, como ela disse: \u201c[&#8230;] acabou n\u00e3o dando em nada [&#8230;]\u201d. Gislane perdoou, por medo e por depend\u00eancia econ\u00f4mica. \u201c[&#8230;] como em tantas outras hist\u00f3rias de relacionamentos abusivos, ele pediu perd\u00e3o e eu perdoei\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Algum tempo depois, quando j\u00e1 tinha seu segundo filho, um menino, a viol\u00eancia se intensificou. O \u00e1lcool teria entrado em cena e tornado aquele homem ainda mais agressivo. Gislane relata que quando ele estava s\u00f3brio, a fam\u00edlia vivia momentos de muita alegria. Certa noite, ele chegou bastante exaltado, encontrou todos dormindo e come\u00e7ou a gritar, partindo para a agress\u00e3o. \u201c[&#8230;] deu socos na minha cabe\u00e7a, puxando pelo cabelo para fora da cama. Meus dois filhos come\u00e7aram a bater no pai e aquela cena triste, foi a \u00faltima vez [&#8230;]\u201d. Nesta etapa, a Gislane estava morando na cidade e j\u00e1 fazia uso de medicamentos antidepressivos. \u201c[&#8230;] tentei me matar tomando muitos rem\u00e9dios, n\u00e3o tinha for\u00e7as para buscar por ajuda, sentia dentro de mim um vazio e um sentimento de inferioridade e tristeza. Eu me olhava no espelho e n\u00e3o me reconhecia, me sentia feia, velha, in\u00fatil. Ele me dizia na cara que ningu\u00e9m me queria, que eu era feia, cheia de espinhas&#8230; eu acreditava. [&#8230;] Apesar de viver numa mans\u00e3o com piscina, carros, nada disso valia a pena, pois n\u00e3o estava feliz. [&#8230;] Ap\u00f3s o div\u00f3rcio, no desespero de assinar logo e me ver livre daquela situa\u00e7\u00e3o, eu n\u00e3o li e acabei abrindo m\u00e3o de tudo, at\u00e9 dos meus filhos\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Logo ap\u00f3s, por interfer\u00eancia do seu ex-companheiro, pelas rela\u00e7\u00f5es que tinha, perdeu o emprego que havia conseguido e foi despejada da casa onde morava. \u201c[&#8230;] cedi, entreguei meus filhos porque n\u00e3o tive para onde ir\u201d. Hoje, revela que tem uma imensa resist\u00eancia com rela\u00e7\u00e3o aos homens, \u201c[&#8230;] n\u00e3o deixo que se aproximem de mim. Superei as agress\u00f5es, mas o medo ainda predomina\u201d. Gislane enfatizou que tinha uma imensa dificuldade em perceber que poderia caminhar sozinha e que n\u00e3o precisava do seu ex para nada.<\/p>\n\n\n\n<p>No per\u00edodo que buscava refazer sua vida, conheceu uma pessoa que chamou de anjo enviado por Deus: sua companheira e amiga que, a acolheu com paci\u00eancia, carinho e amor. Gislane construiu uma nova uni\u00e3o distante dali, onde se sente bem consigo mesma e mais forte para enfrentar os obst\u00e1culos que vierem. Gislane achava que era culpada pelo comportamento agressivo do seu ex-companheiro. Atualmente, cinco anos depois do rompimento definitivo, viu que encarar seu passado foi crucial. Retornou h\u00e1 pouco tempo de S\u00e3o Paulo, ainda com feridas, mas que j\u00e1 n\u00e3o doem mais \u201c[&#8230;] hoje, sei que sou um exemplo de supera\u00e7\u00e3o para as mulheres que passam pelo mesmo problema [&#8230;]\u201d. Gislane deixa palavras de encorajamento, incentivando as mulheres a procurarem ajuda \u201c[&#8230;] seja l\u00e1 qual for a situa\u00e7\u00e3o, procure ajuda. Afaste-se do agressor, n\u00e3o tenha medo, o medo paralisa. Fique longe at\u00e9 se sentir mais forte para enfrentar a situa\u00e7\u00e3o, cuide-se, ame-se, n\u00f3s somos as meninas dos olhos de Deus. Se eu consegui, voc\u00ea tamb\u00e9m consegue. [&#8230;] se tiver medo, v\u00e1 assim mesmo. Pe\u00e7a ajuda\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mais uma vez, retomo este tema que parece sem fim. A cada conversa com mulheres que romperam ciclos violentos, novas hist\u00f3rias de reconhecimento dos abusos sofridos e de supera\u00e7\u00e3o. Com a devida autoriza\u00e7\u00e3o para exposi\u00e7\u00e3o de sua hist\u00f3ria e imagens a ela relacionadas, descrevo, a seguir, o relato de vida da Gislane Braun. 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