{"id":728,"date":"2020-06-21T16:42:36","date_gmt":"2020-06-21T19:42:36","guid":{"rendered":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=728"},"modified":"2020-06-21T17:11:48","modified_gmt":"2020-06-21T20:11:48","slug":"teofilo-otoni-os-monumentos-escravistas-e-a-recusa-da-sua-negritude","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=728","title":{"rendered":"Te\u00f3filo Otoni, os monumentos escravistas e a recusa da sua negritude"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/297ae7df-3f11-4dc3-90d0-3fa40b5cba9f-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-747\" width=\"219\" height=\"263\" srcset=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/297ae7df-3f11-4dc3-90d0-3fa40b5cba9f-1.jpg 650w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/297ae7df-3f11-4dc3-90d0-3fa40b5cba9f-1-249x300.jpg 249w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/297ae7df-3f11-4dc3-90d0-3fa40b5cba9f-1-348x420.jpg 348w\" sizes=\"(max-width: 219px) 100vw, 219px\" \/><figcaption><strong>M\u00e1rcio Achtschin Santos<\/strong><br>Doutor em Hist\u00f3ria pela UFMG, Professor da UFVJM, autor de diversos livros, o \u00faltimo &#8220;Forma\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, pol\u00edtica, social e cultural do Vale do Mucuri&#8221;<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Na B\u00e9lgica, no Reino Unido e nos Estados Unidos t\u00eam-se realizado intensos debates e rea\u00e7\u00f5es das mais diversas sobre os monumentos e espa\u00e7os p\u00fablicos que exaltam personagens com pr\u00e1ticas escravistas e genocidas. A Warner Media retirou de seu cat\u00e1logo \u201c&#8230; E o vento levou\u201d, repensando a rela\u00e7\u00e3o entre os cl\u00e1ssicos do cinema e o racismo. No Brasil, nos grandes centros tamb\u00e9m v\u00eam ocorrendo reflex\u00f5es nessa dire\u00e7\u00e3o. Em S\u00e3o Paulo est\u00e3o sendo feitas duras cr\u00edticas acerca de monumentos que exaltam os bandeirantes, grupos que praticaram no per\u00edodo colonial a\u00e7\u00f5es brutais contra ind\u00edgenas e quilombos. Essa discuss\u00e3o deve ser trazida tamb\u00e9m para o Vale do Mucuri. Nesse sentido, concentro apenas na quest\u00e3o negra em fun\u00e7\u00e3o dos fatos e manifesta\u00e7\u00f5es globais que ocorrem atualmente, Ainda que a realidade ind\u00edgena na regi\u00e3o seja motivo de reflex\u00e3o de igual import\u00e2ncia.<\/p>\n\n\n\n<p>A cidade de Te\u00f3filo Otoni surgiu em 1853, per\u00edodo em que ainda predominava o trabalho escravo. A reocupa\u00e7\u00e3o da regi\u00e3o foi realizada tendo \u00e0 frente a Cia do Mucuri, criada por Te\u00f3filo Ottoni. Essa empresa manteve ao longo de sua exist\u00eancia, 27 escravos. Por diversas vezes, utilizou mais de uma centena destes alugados, caso da abertura da estrada Santa Clara. Pelos dados do Censo de 1872, em torno de 10% da popula\u00e7\u00e3o da regi\u00e3o do Mucuri era escrava. Os cativos realizavam todo tipo de atividade, desde o trabalho nas lavouras de caf\u00e9 at\u00e9 servi\u00e7os em com\u00e9rcio urbanos. Grandes fazendas como a Monte Cristo, Liberdade e Itamunhec chegaram a ter, cada uma, mais de cem escravos.<\/p>\n\n\n\n<p>Com o fim da escravid\u00e3o, a regi\u00e3o manteve a base do trabalho bra\u00e7al negro. \u00c9 o caso da Estrada de Ferro Bahia e Minas (EFBM), que utilizou uma farta m\u00e3o-de-obra dispon\u00edvel no nordeste mineiro e seu entorno. Muitos desses trabalhadores vieram de comunidades quilombolas, como Helv\u00e9cia, na Bahia. Mesmo com a escravid\u00e3o tendo sido abolida em 1888, at\u00e9 os anos de 1950 era recorrente o a\u00e7oite contra os ferrovi\u00e1rios que faziam a conserva da EFBM. Passados os anos, apesar de uma hist\u00f3ria oficial constru\u00edda a partir de uma forte influ\u00eancia germ\u00e2nica, a realidade \u00e9 que a popula\u00e7\u00e3o do Vale do Mucuri \u00e9 ainda hoje majoritariamente negra ou de descend\u00eancia afro. Esses dados podem ser confirmados pelo Censo de 2010.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, a presen\u00e7a de atores negros na hist\u00f3ria regional sempre foi apagada do cen\u00e1rio cotidiano. Os negros n\u00e3o se reconhecem nos espa\u00e7os percorridos na cidade de Te\u00f3filo Otoni. A narrativa das est\u00e1tuas, das pra\u00e7as, das ruas, n\u00e3o os representa. Al\u00e9m de Te\u00f3filo Ottoni, que recebe o nome da cidade, diversos propriet\u00e1rios de escravos s\u00e3o homenageados com nome de ruas, como Capit\u00e3o Leonardo e Ana Am\u00e1lia, ou nome de escolas, como Manoel Esteves Ottoni. Esse, inclusive, foi processado em 1874 por ter escravizado uma crian\u00e7a negra livre com a alega\u00e7\u00e3o no processo que \u201c. . . um senhor como ele qualquer um podia servir\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, \u00e9 farta a rela\u00e7\u00e3o de negros que participaram da vida social, pol\u00edtica, econ\u00f4mica e cultural da cidade de Te\u00f3filo Otoni. Mas nenhuma refer\u00eancia de express\u00e3o foi dada a eles nos espa\u00e7os p\u00fablicos. Nestor Medina, ferrovi\u00e1rio, foi uma lideran\u00e7a expressiva, perseguido pelo regime militar de 1964 por sua atua\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Wander Lister de Carvalho e S\u00e1, neto de av\u00f3 liberta pela Lei do Ventre Livre e chamado de \u201cNeg\u00e3o\u201d nas campanhas eleitorais, foi prefeito da cidade entre os anos de 1977 a 1982.<\/p>\n\n\n\n<p>Outros an\u00f4nimos fizeram parte dessa hist\u00f3ria. Em 1887, Ces\u00e1rio, escravo de capit\u00e3o Leonardo Ottoni, se recusou a comer a refei\u00e7\u00e3o estragada que lhe serviam. Amea\u00e7ado de a\u00e7oite pelo propriet\u00e1rio, tentou fugir quando foi atingido por um tiro no bra\u00e7o. Em um gesto de coragem, caminhou 12 quil\u00f4metros at\u00e9 a cidade e prestou queixa contra o senhor. Ou a escrava Clementina, que em 1869, n\u00e3o suportando a viol\u00eancia da escravid\u00e3o, espancou d. Jacinta Jos\u00e9 Coelho. A cativa foi morta, sendo encerrado o processo com a alega\u00e7\u00e3o que a mesma havia suicidado.<\/p>\n\n\n\n<p>Existem quatro monumentos de destaque na cidade de Te\u00f3filo Otoni. O do fundador Ottoni, o imigrante alem\u00e3o e, mais recentemente, o imigrante liban\u00eas. O quarto, que poderia, do mesmo modo que os outros, incorporar a figura humana, est\u00e1 na pra\u00e7a expresso por uma m\u00e1quina. O trabalhador da Estrada de Ferro Bahia e Minas \u00e9 representado por uma m\u00e1quina. Essa rela\u00e7\u00e3o entre os quatro s\u00edmbolos \u00e9 emblem\u00e1tica, deixando evidente a invisibilidade dada \u00e0 participa\u00e7\u00e3o negra na hist\u00f3ria regional. Os monumentos existentes, e, principalmente, os n\u00e3o existentes, devem ser refer\u00eancias para reflex\u00e3o. \u00c9 um ponto de partida para identificar quem somos e quem negamos ser por mais de um s\u00e9culo e meio.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na B\u00e9lgica, no Reino Unido e nos Estados Unidos t\u00eam-se realizado intensos debates e rea\u00e7\u00f5es das mais diversas sobre os monumentos e espa\u00e7os p\u00fablicos que exaltam personagens com pr\u00e1ticas escravistas e genocidas. A Warner Media retirou de seu cat\u00e1logo \u201c&#8230; E o vento levou\u201d, repensando a rela\u00e7\u00e3o entre os cl\u00e1ssicos do cinema e o racismo. [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":747,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"rop_custom_images_group":[],"rop_custom_messages_group":[],"rop_publish_now":"initial","rop_publish_now_accounts":[],"rop_publish_now_history":[],"rop_publish_now_status":"pending","footnotes":""},"categories":[25,24,17],"tags":[227,226,228],"class_list":["post-728","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-destaque","category-opiniao","category-teofilootoni","tag-achtschin","tag-marcio","tag-monumentos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/728"}],"collection":[{"href":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=728"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/728\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":748,"href":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/728\/revisions\/748"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/747"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=728"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=728"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=728"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}