{"id":7432,"date":"2021-01-22T15:34:03","date_gmt":"2021-01-22T18:34:03","guid":{"rendered":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=7432"},"modified":"2021-01-22T15:34:04","modified_gmt":"2021-01-22T18:34:04","slug":"eu-e-uma-mulher-chamada-mar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=7432","title":{"rendered":"Eu e uma mulher chamada mar&#8230;"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/f9718fac-dbb2-45bc-ab17-a6cc5a19a494-2.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-7433\" width=\"357\" height=\"293\"\/><figcaption><strong>An\u00edbal Gon\u00e7alves &#8211; Pedagogo<\/strong><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>No primeiro dia deste ano eu vi o mar. Sempre um indescrit\u00edvel reencontro com as emo\u00e7\u00f5es da juventude. Entardecia com um suave brilhar como o que reluz no mais profundo relampejo nos olhos castanhos da amada quando saciada, repousa entre os len\u00e7\u00f3is, depois dos embates do amor. Ap\u00f3s tantos e incont\u00e1veis dias sem sair de casa por v\u00e1rios motivos, na manh\u00e3 de s\u00e1bado, fui passear pelos meus lugares favoritos daquela cidade litor\u00e2nea. E tempos havia em que n\u00e3o me divertia tanto, ria meu riso que sa\u00eda f\u00e1cil de minha boca porque brotava, nascia do cora\u00e7\u00e3o feito um olho d\u2019\u00e1gua rec\u00e9m-surgido por entre as pedras polidas da cachoeira da Ponte de Pedra, em minha terra natal Coroaci. T\u00e3o bom sentir-me pleno de felicidade e de alegria nem que fosse pelo brev\u00edssimo espa\u00e7o de algumas horas joviais. Para mim, estar entre amigos trata-se de uma verdadeira b\u00ean\u00e7\u00e3o que, somente aqueles que os t\u00eam, como eu, podem, sem d\u00favida, desfrutar decentemente e com toda intensidade. Cada vez mais acredito ser a amizade um dom divino, indispens\u00e1vel \u00e0 vida.<\/p>\n\n\n\n<p>E assim, eu pude ver o mar num eterno, ansiado, desejado reencontro feito um homem e seu espelho. Entre o mar e eu existe uma antiga intimidade jamais perdida que foi sendo constru\u00edda, arquitetada desde a vez primeira em que nos vimos durante a minha j\u00e1 long\u00ednqua juventude. Debru\u00e7ado sobre meus pensares, deixei-me a fitar, enlevado, as ondas como se nunca as houvesse visto, esquecido de todos os rel\u00f3gios que comandam minha jornada durante a semana. L\u00e1 na risca m\u00f3vel do horizonte, uma grande vaga se alevantou, poderosa e sobranceira e veio quebrar-se mansamente na margem, quase sem fazer espumas. Ah, eu e o meu bucolismo retr\u00f4.<\/p>\n\n\n\n<p>Como se houvessem combinado se alternar num carinhoso rod\u00edzio, vez em vez, um amigo vinha me chamar para um bate-papo. Com uma suave obedi\u00eancia, eu o seguia de volta \u00e0 mesa para mais uma rodada de conversas, conta\u00e7\u00e3o de \u201ccausos\u201d, desenrolar de piadas e muitas, muitas sonoras gargalhadas. Passado certo tempo, novamente eu retornava, qual um bicho amestrado, a debru\u00e7ar-me sobre meus pensares, hipnotizado pelo chamado do mar que penso somente eu ouvia, apesar da alegre barulheira a meu redor. E novamente me deixava olhando fixamente o mar enquanto me permitiam. Ao longe, min\u00fasculo na dimens\u00e3o da dist\u00e2ncia, um barquinho vagava, parecendo permanecer parado no mesmo lugar em meio \u00e0 vastid\u00e3o do oceano. E eu olhando o mar com olhos de maravilha, tentando unir a sua imensid\u00e3o infinita \u00e0 humilde pequenez de minha alma enfim pacificada pela atl\u00e2ntica paisagem. Ah, que rom\u00e2ntico sonhador de sonhares imposs\u00edveis insisto em continuar sendo enquanto perduram esses momentos do mais puro enlevo e adora\u00e7\u00e3o incontida. Besteira l\u00edrica de que n\u00e3o abro m\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu digo e repito sem a menor hesita\u00e7\u00e3o: o mar \u00e9 mulher, eu sei. Quem o olhar bem, ver\u00e1 que ele possui as formas de uma mulher na curvil\u00ednea silhueta de suas ondas e uma longa e bela cabeleira de marinhas algas e o h\u00e1lito perfumado de seus ventos mareiros. Entanto, o mar \u00e9 uma mulher diferente de todas as outras, pois que ao inv\u00e9s de possu\u00ed-la nas noites de lua cheia, \u00e9 ela quem nos possui e nos toma posse a seu bel prazer. Tem o g\u00eanio doce e tempestuoso das mulheres bonitas e traz oculto em suas profundezas o l\u00fabrico perigo de sua irresist\u00edvel sedu\u00e7\u00e3o e diante do mar somos todos argonautas. Eu amo o mar com um amor sem limites e sem freios. Minha paix\u00e3o imorredoura por ele resta encravada dentro de mim de uma maneira indel\u00e9vel, definitiva. E desse amor inextingu\u00edvel n\u00e3o posso, n\u00e3o consigo e nem desejo libertar-me e minha marinha escravid\u00e3o ignora as cartas de alforria. De h\u00e1 muito, rasguei, joguei no mato, dei sumi\u00e7o em uma talvez poss\u00edvel, mas indesejada liberdade. Dessa f\u00eamea misteriosa, de segredos indevass\u00e1veis, sou um escravo perp\u00e9tuo, feliz com sua escravid\u00e3o. Permane\u00e7o genuflexo a seus p\u00e9s numa amorosa servid\u00e3o absoluta, pronto a cumprir mesmo os seus desejos mais cru\u00e9is e aviltantes dessa mulher chamada mar.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>An\u00edbal Gon\u00e7alves<\/strong> \u00e9 pedagogo, graduado em Administra\u00e7\u00e3o Escolar, ex-diretor da Escola Estadual de Coroaci &#8211; MG [hoje Dona Sinhaninha Gon\u00e7alves] e professor de Filosofia, Sociologia e Hist\u00f3ria da Educa\u00e7\u00e3o. Foi chefe do Departamento de Educa\u00e7\u00e3o Cooperativista da CLTO. Atualmente, jornalista e radialista da 98 FM (Te\u00f3filo Otoni) e colunista do Jornal Di\u00e1rio Tribuna.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No primeiro dia deste ano eu vi o mar. Sempre um indescrit\u00edvel reencontro com as emo\u00e7\u00f5es da juventude. Entardecia com um suave brilhar como o que reluz no mais profundo relampejo nos olhos castanhos da amada quando saciada, repousa entre os len\u00e7\u00f3is, depois dos embates do amor. 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