{"id":7890,"date":"2021-02-17T15:49:29","date_gmt":"2021-02-17T18:49:29","guid":{"rendered":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=7890"},"modified":"2021-02-18T22:56:00","modified_gmt":"2021-02-19T01:56:00","slug":"o-direito-ao-grito","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=7890","title":{"rendered":"O direito ao grito"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Jose-Carlos.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-7891\" width=\"364\" height=\"267\" srcset=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Jose-Carlos.jpg 700w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Jose-Carlos-300x221.jpg 300w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Jose-Carlos-80x60.jpg 80w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Jose-Carlos-696x512.jpg 696w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Jose-Carlos-571x420.jpg 571w\" sizes=\"(max-width: 364px) 100vw, 364px\" \/><figcaption><em><strong>Jos\u00e9 Carlos Freire<\/strong><\/em><br><strong>Professor da UFVJM,<br>Campus de Te\u00f3filo Otoni\/MG<\/strong><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Ao retomar esta coluna desejo que o leitor e as pessoas que lhe s\u00e3o queridas estejam bem. Pretendo que este texto seja o primeiro de outros nos quais a filosofia dialogue com a literatura. Na maioria, livros que ainda n\u00e3o li. N\u00e3o se trata de cr\u00edtica liter\u00e1ria, pois isso excede minhas condi\u00e7\u00f5es. \u00c9 algo bem mais modesto: quero compartilhar reflex\u00f5es. Considero que romances, contos e poesias, nos fazem pensar sobre n\u00f3s, sobre a vida, sobre o mundo que temos ou o que gostar\u00edamos de ter. Se o leitor se sentir motivado a ler ou reler as obras sugeridas e tantas outras que me escapam, o objetivo ter\u00e1 sido atingido. Das muitas urg\u00eancias de nosso tempo esta \u00e9, sem d\u00favida, uma das maiores: precisamos de mais literatura.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 pouco tempo fui provocado a ler A hora da estrela, de Clarice Lispector. Isso partiu de uma conversa com uma velha amiga. Digo ler \u2013 e n\u00e3o reler \u2013 porque a primeira leitura que fiz h\u00e1 mais tempo foi r\u00e1pida. Essa autora instigante, que est\u00e1 na fronteira entre literatura e filosofia, merece ser lida com toda a aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A hora da estrela \u00e9 o \u00faltimo romance publicado em vida pela escritora e narra o cotidiano de uma mulher nordestina que vive no Rio de Janeiro. Sua vida sem emo\u00e7\u00f5es, sem cores e sem sabor. A narrativa seca e dura nos faz acompanhar Macab\u00e9a e, inevitavelmente, nos afei\u00e7oamos a ela.<\/p>\n\n\n\n<p>Antes, por\u00e9m, quero dizer do modo como eu leio esse livro. O leitor certamente tem ou ter\u00e1 o seu. A riqueza da arte \u00e9 nos possibilitar formas diversas de experi\u00eancia. N\u00e3o me arrisco, por exemplo, a fazer uma leitura de g\u00eanero do romance, por n\u00e3o me julgar capacitado para isso. Nem diretamente uma leitura de classe. Tais aspectos est\u00e3o inegavelmente presentes, afinal, \u00e9 um romance sobre uma mulher pobre, nordestina e que sofre constantes humilha\u00e7\u00f5es na grande cidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Leio \u201cA hora da estrela\u201d como dois livros amarrados. Um que narra a hist\u00f3ria de Macab\u00e9a; outro que se constitui como conjunto de pensamentos da autora. Os dois, que se entrela\u00e7am o tempo todo, oferecem-nos grandes momentos. Come\u00e7o pelo segundo. \u201cEnquanto eu tiver perguntas e n\u00e3o houver resposta continuarei a escrever\u201d. Nada mais pungente que isso. Por que se escreve? Filosofia, literatura? Resposta: porque ainda existem perguntas. Como diz a autora: \u201cEste livro \u00e9 uma pergunta\u201d. E a op\u00e7\u00e3o de Clarice \u00e9 por um texto cru, duro como a vida da protagonista, com m\u00e1xima simplicidade nas palavras. Afinal, \u201ca palavra tem que se parecer com a palavra\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 curioso como a narrativa demora a apresentar Macab\u00e9a. Parece haver uma ang\u00fastia da pr\u00f3pria escritora em falar de algo que lhe provoca e, ao mesmo tempo, em procurar a forma adequada de faz\u00ea-lo. Como falar de uma \u201cinoc\u00eancia pisada\u201d, de uma \u201cmis\u00e9ria an\u00f4nima\u201d? O que quer mostrar a autora com tais reflex\u00f5es? Muitas podem ser as respostas. Escolho a minha: ela escreve \u201cporque h\u00e1 o direito ao grito\u201d. Da personagem e da autora.<\/p>\n\n\n\n<p>O outro livro, o central, \u00e9 a hist\u00f3ria de Macab\u00e9a, ou melhor, \u201cas aventuras de uma mo\u00e7a numa cidade toda feita contra ela\u201d. Nascida no sert\u00e3o de Alagoas, \u00f3rf\u00e3 aos dois anos e criada por uma tia beata e insens\u00edvel, essa jovem de dezenove anos acaba no Rio de Janeiro, trabalhando como datil\u00f3grafa. Divide o dormit\u00f3rio com quatro companheiras que exaurem suas for\u00e7as no trabalho. Seu primeiro namorado \u00e9 o ambicioso Ol\u00edmpico de Jesus, que n\u00e3o passa de um sobrevivente, descontando nos outros e sofrimento que a vida brava do sert\u00e3o lhe impusera antes de partir para cidade grande. Ol\u00edmpico n\u00e3o ama Macab\u00e9a, mas sim o seu projeto de tornar-se homem de sucesso. Por isso n\u00e3o titubeia em constrang\u00ea-la. Macab\u00e9a tem no seu curto namoro mais uma rela\u00e7\u00e3o de silenciamento.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Como \u00e9 a vida de Macab\u00e9a? Simples:<\/strong> \u201cela somente vive, inspirando e expirando, inspirando e expirando\u201d. Passa o dia no trabalho e as horas vagas ouvindo a R\u00e1dio Rel\u00f3gio. Aprendeu a receber, sem reclamar, as pancadas na cabe\u00e7a dadas pela tia e tamb\u00e9m as que a vida mesma lhe dava: \u201cAs pancadas ela esquecia, pois, esperando- -se um pouco a dor termina por passar\u201d. O leitor que vai acompanhando a narrativa se sente incomodado, quer que Macab\u00e9a rompa suas cadeias: \u201cPor que ela n\u00e3o reage? Cad\u00ea um pouco de fibra? N\u00e3o, ela \u00e9 doce e obediente\u201d. Tal como o narrador, nossa vontade \u00e9 a de \u201cfazer com que quando ela acordasse encontrasse simplesmente o grande luxo de viver\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>E h\u00e1, sim, momentos belos! Em um deles ela experimenta pela primeira vez a solid\u00e3o, quando falta ao trabalho e tem o dia e o quarto s\u00f3 para si. Saboreia mesmo uma pontinha de liberdade. Noutro momento, ao ver a capa de um livro do seu patr\u00e3o, chega quase a se reconhecer no t\u00edtulo, \u201cHumilhados e Ofendidos\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o momento mais sublime \u00e9, sem d\u00favida, quando Macab\u00e9a conta a Ol\u00edmpico, dono de uma insensibilidade agressiva, sobre o dia que ouviu no r\u00e1dio a m\u00fasica \u201cUna furtiva lacrima\u201d. Sem saber por que, a m\u00fasica se materializara, arrancando- -lhe l\u00e1grimas; e agora chora novamente ao recordar a cena. Ela tenta at\u00e9 cantarolar a can\u00e7\u00e3o, mas a vida n\u00e3o lhe dera um namorado capaz de ouvi-la e de entender a grandeza daquela hist\u00f3ria. E ela se cala, uma vez mais.<\/p>\n\n\n\n<p>Na \u00faltima parte do romance ocorre o encontro de Macab\u00e9a com a cartomante. N\u00e3o o detalharei, porque \u00e9 preciso que o leitor percorra os par\u00e1grafos, com a calma que eles merecem. \u00c9 ali, por exemplo, que o afeto que a mo\u00e7a nunca recebera na vida parece, enfim, emergir do mais profundo de si. A ponto de explodir em um terno beijo na velha senhora. Como na inf\u00e2ncia, ao acariciar a cartomante, era como se Macab\u00e9a acariciasse novamente a si mesma&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, afinal, ela se rebelou? Ela descobriu que pertencia a uma resistente esp\u00e9cie \u201cque um dia vai reivindicar o direito ao grito\u201d? Aquela inoc\u00eancia foi, enfim, respeitada neste in\u00f3spito mundo? Passo a bola para voc\u00ea, leitor.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Finalizando, vale perguntar:<\/strong> O que este livro nos provoca? Posso falar do seu efeito em mim: Macab\u00e9a somos todos n\u00f3s! Como ela, que \u201cera um acaso\u201d, tamb\u00e9m n\u00e3o sabemos, ou fingimos n\u00e3o saber, que, \u201cnuma sociedade t\u00e9cnica\u201d, n\u00e3o passamos de parafusos dispens\u00e1veis. E a vida? O que seria? Nem de longe \u00e9 uma coisa f\u00e1cil. Como bem disse o narrador: \u201cA vida \u00e9 um soco no est\u00f4mago\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Sugest\u00e3o de leitura:<\/strong> \u201cA hora da estrela\u201d (1977), de Clarice Lispector. Publicado pela editora Jos\u00e9 Olympio. Dispon\u00edvel em PDF na internet. <strong>Contato<\/strong>: <a href=\"mailto:freire.jose@hotmail.com\">freire.jose@hotmail.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ao retomar esta coluna desejo que o leitor e as pessoas que lhe s\u00e3o queridas estejam bem. Pretendo que este texto seja o primeiro de outros nos quais a filosofia dialogue com a literatura. Na maioria, livros que ainda n\u00e3o li. 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