{"id":8506,"date":"2021-03-11T17:07:56","date_gmt":"2021-03-11T20:07:56","guid":{"rendered":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=8506"},"modified":"2021-03-13T23:37:01","modified_gmt":"2021-03-14T02:37:01","slug":"contra-o-viver-domesticado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=8506","title":{"rendered":"Contra o viver domesticado"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Jose-Carlos.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-8507\" width=\"416\" height=\"305\" srcset=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Jose-Carlos.jpg 700w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Jose-Carlos-300x221.jpg 300w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Jose-Carlos-80x60.jpg 80w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Jose-Carlos-696x512.jpg 696w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Jose-Carlos-571x420.jpg 571w\" sizes=\"(max-width: 416px) 100vw, 416px\" \/><figcaption><strong>Jos\u00e9 Carlos Freire<\/strong>. <strong><em>Professor da UFVJM, Campus<\/em><\/strong><br><strong><em>de Te\u00f3filo Otoni\/MG<\/em><\/strong><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>A leitura do romance A paix\u00e3o segundo G. H. de Clarice Lispector, publicado em 1964, permite uma experi\u00eancia fascinante. O texto inovador para os padr\u00f5es tradicionais da narrativa tem cunho filos\u00f3fico e \u00e9 narrado em primeira pessoa, algo que j\u00e1 se esbo\u00e7ava em nossa literatura de ent\u00e3o, mas n\u00e3o de forma ostensiva. Evidentemente, \u00e9 preciso que, ao iniciar G.H., o leitor aceite acompanhar o movimento da protagonista.<\/p>\n\n\n\n<p>O enredo \u00e9 relativamente simples: ap\u00f3s dispensar Janair, G.H. decide fazer uma faxina no quarto da empregada. Imaginando que estivesse sujo e mal cuidado, surpreende-se com a organiza\u00e7\u00e3o e a limpeza. A pintura em carv\u00e3o na parede faz com que G.H. inicie seu processo de reflex\u00e3o sobre si mesma: Quem era a empregada? Ou melhor: como ela, G.H., era vista por Janair, a quem sequer observara durante todo o tempo que permaneceu em sua casa? Pode algu\u00e9m conviver com outra pessoa sem not\u00e1-la?<\/p>\n\n\n\n<p>Na sequ\u00eancia, resolve abrir o arm\u00e1rio e depara-se com uma barata. Assustada, fecha a porta, prendendo o inseto que fica com a metade do corpo para fora. A longa agonia da barata, apresentada com detalhes, \u00e9 acompanhada da tamb\u00e9m ag\u00f4nica reflex\u00e3o da narradora. Aquele inseto nojento, do qual vaza aos poucos a \u201cmassa branca\u201d, detona um processo de desconstru\u00e7\u00e3o da protagonista que sair\u00e1 transformada de tal encontro. Mas o que de fato se passou entre G.H. e a barata? Deixarei como li\u00e7\u00e3o de casa ao leitor. Uma sugest\u00e3o apenas: n\u00e3o desista no primeiro desconforto que a leitura lhe provocar.<\/p>\n\n\n\n<p>Sem querer estragar a experi\u00eancia de quem acompanhar\u00e1 G.H. pela primeira vez, o que pode ser dito desse romance singular? Muita coisa. Diversas interpreta\u00e7\u00f5es s\u00e3o poss\u00edveis \u2013 e n\u00e3o se trata de subterf\u00fagio ret\u00f3rico. H\u00e1 quem o leia pela chave psicanal\u00edtica; h\u00e1 aqueles que tomam o caminho da antropologia; outros destacam a rela\u00e7\u00e3o social entre a patroa branca e rica e a empregada negra e pobre; outros, ainda, leem o romance como texto m\u00edstico.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre as muitas escolhas interpretativas poss\u00edveis, fa\u00e7o a minha: G.H \u00e9 uma defesa da vida n\u00e3o domesticada. H\u00e1 uma imagem curiosa no livro que \u00e9 fundamental: a terceira perna. A protagonista nos avisa que o encontro com a barata a fizera perder essa \u201cperna\u201d, s\u00edmbolo de tudo aquilo que nos faz caminhar aparentemente seguros pela vida, mas que, se retirado de n\u00f3s, ficamos sem ch\u00e3o, sem o apoio: \u201cPerdi alguma coisa que me era essencial, e que j\u00e1 n\u00e3o me \u00e9 mais\u201d. Notem: parecia essencial. Eis o ponto. Ter\u00edamos a coragem de definir aquilo que na nossa vida nos parece essencial, mas de fato, n\u00e3o \u00e9? N\u00e3o \u00e9 nada f\u00e1cil&#8230; Tanto que a protagonista nos adverte: \u201c\u00c9 dif\u00edcil perder-se\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A inf\u00e2ncia \u00e9 uma refer\u00eancia nos textos de Clarice. Por isso G.H. se interroga: \u201cFoi como adulto ent\u00e3o, que eu tive medo e criei a terceira perna? Mas como adulto terei a coragem infantil de me perder?\u201d. O fato \u00e9 que, aferrada \u00e0 imagem que havia feito de si mesma, G.H. se tornara vazia: \u201cO viver que eu havia domesticado para torn\u00e1-lo familiar\u201d. Medo de andar com as pr\u00f3prias pernas. Medo da liberdade.<\/p>\n\n\n\n<p>O antigo edif\u00edcio s\u00f3lido da vida de G.H. fora ao ch\u00e3o: \u201cNo desmoronamento, toneladas ca\u00edram sobre toneladas\u201d. Mas, perguntar\u00e1 o leitor, tudo isso apenas a partir do encontro com uma simples barata? Ora, em Clarice o cotidiano \u00e9 cheio de acontecimentos intensos. O nome disso \u00e9 \u201cepifania\u201d. Um termo que vem da filosofia antiga e que se aplica bem aos textos da escritora, como enfatizam muitos de seus estudiosos. Epifania \u00e9 revela\u00e7\u00e3o. Um fato singular pode nos levar a repensar tudo.<\/p>\n\n\n\n<p>O leitor insistente dir\u00e1: Para qu\u00ea? \u00c9 simples: para nos fazer perceber o instante: \u201cO que eu nunca havia experimentado era o choque com o momento chamado \u2018j\u00e1\u2019. Hoje me exige hoje mesmo.\u201d O efeito da epifania \u00e9 nos tirar do piloto autom\u00e1tico: \u201cEra j\u00e1. Pela primeira vez na minha vida tratava- -se plenamente de agora\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o instante \u00e9, por vezes, desprovido de grandiosidade. Ansiamos por algo que nos eleve, que nos transporte ao fant\u00e1stico, ao sobrenatural se poss\u00edvel! Buscamos o \u201cacr\u00e9scimo\u201d das coisas, das situa\u00e7\u00f5es, da vida mesma. N\u00e3o raro, trocamos o real pelo fantasioso. De novo a fil\u00f3sofa-escritora nos adverte: \u201cQuando se realiza o viver, pergunta-se: mas<\/p>\n\n\n\n<p>era s\u00f3 isto? E a resposta \u00e9: n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 isto, \u00e9 exatamente isto. (&#8230;) Ser\u00e1 preciso \u2018purificar-me\u2019 muito mais para inclusive n\u00e3o querer o acr\u00e9scimo dos acontecimentos\u201d. A prop\u00f3sito, c\u00e1 entre n\u00f3s: n\u00e3o seriam nossos perfis de rede social, muitas vezes, uma esp\u00e9cie de \u201cacr\u00e9scimo\u201d do que de fato somos?<\/p>\n\n\n\n<p>A quebra do \u201cinv\u00f3lucro\u201d em que G.H. se situava a remete \u00e0 vida mesma. Mas seria isso uma busca meramente interior, um processo de retorno a si em busca de uma felicidade solit\u00e1ria? N\u00e3o me parece. Embora os manuais insistam em colocar a obra de Clarice como intimista, o que salta de seus textos \u00e9 sempre uma provoca\u00e7\u00e3o que vem do outro. Este outro pode ser um objeto, um animal ou uma pessoa. N\u00e3o percamos de vista que, antes do encontro com a barata, houve a figura de Janair. A empregada invis\u00edvel que enxergava G.H. quando esta sequer se enxergava. Janair, a que tem nome; \u201cG.H.\u201d, um sujeito indeterminado.<\/p>\n\n\n\n<p>O que nos torna s\u00f3s \u00e9 a nossa impress\u00e3o de autossufici\u00eancia. Desmoronado o edif\u00edcio, a mulher que antes pensava se bastar, agora reconhece sua sede de vida, a vontade de sair de si. Simbolizando o processo de morte- -vida, G.H. compara o epis\u00f3dio com uma travessia: \u201cEu estava saindo do meu mundo e entrando no mundo\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Deixar morrer algo de velho para nascer algo novo. Da\u00ed o t\u00edtulo da obra, que tem menos a ver com sentimento amoroso e mais com a din\u00e2mica da vida: \u201cA condi\u00e7\u00e3o humana \u00e9 a paix\u00e3o de Cristo\u201d. Nesta analogia, o quarto da empregada \u00e9 o t\u00famulo onde G.H. esteve para que ali morresse uma vida superficial e pudesse brotar algo de aut\u00eantico, que dispense uma \u201cterceira perna\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Qual seria o ponto almejado? Talvez quando possamos dizer como G.H.: \u201ca vida se me \u00e9\u201d. Um renascimento constante. Rumo a um est\u00e1gio m\u00e1gico? N\u00e3o. De novo: sem acr\u00e9scimos. Assim, olhando tudo como se fosse a primeira vez, tal como as crian\u00e7as, quem sabe possamos fazer do ef\u00eamero algo grandioso. E aprenderemos da G.H. renascida: \u201cO divino para mim \u00e9 o real\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Sugest\u00e3o de leitura:<\/strong> \u201cA paix\u00e3o segundo G.H. (1964)\u201d, de Clarice Lispector. Publicado pela Editora do Autor. Dispon\u00edvel em PDF na internet. Contato: freire.jose@hotmail.com<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A leitura do romance A paix\u00e3o segundo G. 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