{"id":9164,"date":"2021-04-07T16:35:05","date_gmt":"2021-04-07T19:35:05","guid":{"rendered":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=9164"},"modified":"2021-04-10T23:30:41","modified_gmt":"2021-04-11T02:30:41","slug":"a-liberdade-dificil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=9164","title":{"rendered":"A liberdade dif\u00edcil"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Jose-Carlos.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-9166\" width=\"352\" height=\"259\" srcset=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Jose-Carlos.jpg 700w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Jose-Carlos-300x221.jpg 300w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Jose-Carlos-80x60.jpg 80w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Jose-Carlos-696x512.jpg 696w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Jose-Carlos-571x420.jpg 571w\" sizes=\"(max-width: 352px) 100vw, 352px\" \/><figcaption><strong><em>Jos\u00e9 Carlos Freire<\/em><br>Professor da UFVJM,<br>Campus de Te\u00f3filo Otoni\/MG<\/strong><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/3.-Imagem.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-9165\" width=\"468\" height=\"311\" srcset=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/3.-Imagem.jpeg 700w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/3.-Imagem-300x200.jpeg 300w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/3.-Imagem-696x463.jpeg 696w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/3.-Imagem-631x420.jpeg 631w\" sizes=\"(max-width: 468px) 100vw, 468px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><strong><em>(Nota: A partir desta edi\u00e7\u00e3o, conto com a preciosa parceria de Vin\u00edcius Figueiredo que far\u00e1 a ilustra\u00e7\u00e3o dos textos)<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Hoje gostaria de tratar de outro livro de Clarice Lispector. Sigo a sugest\u00e3o de meu amigo Igor que, ap\u00f3s ter lido o texto sobre <em>A paix\u00e3o segundo G.H.<\/em>,sugeriu-me a leitura do inquietante <em>\u00c1gua viva. <\/em>Resultado de tr\u00eas anos de intenso trabalho, o livro foi publicado em 1973. O texto original possu\u00eda quase trezentas p\u00e1ginas, bem mais do que as setenta da edi\u00e7\u00e3o final. Chegou a ter outros t\u00edtulos provis\u00f3rios \u2013 um deles bem sugestivo: \u201cObjeto gritante\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>O texto fragment\u00e1rio cont\u00e9m in\u00fameras hist\u00f3rias poss\u00edveis, sem um fio evidente que as amarre. Mistura g\u00eaneros distintos como cr\u00f4nica, prosa po\u00e9tica, ensaio filos\u00f3fico etc. Poderia ser tomado como um exerc\u00edcio na linha do \u201cfluxo de consci\u00eancia\u201d, t\u00e9cnica liter\u00e1ria marcante em autores europeus e estadunidenses do in\u00edcio do s\u00e9culo passado. N\u00e3o falta quem situe Clarice como pioneira desse estilo liter\u00e1rio no Brasil. No fluxo de consci\u00eancia o pensamento segue livremente por associa\u00e7\u00f5es imprevistas e n\u00e3o lineares. Por isso a narradora de \u00c1gua Viva pode dizer: \u201cEstou atr\u00e1s do que fica atr\u00e1s do pensamento\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a literatura do s\u00e9culo XX n\u00e3o est\u00e1 sozinha na busca por uma investiga\u00e7\u00e3o desse tipo sobre o ser humano. A filosofia j\u00e1 se debatia com essa tem\u00e1tica, como no caso de Henri Bergson (1859-1941), o fil\u00f3sofo franc\u00eas que se empenhou em mostrar a import\u00e2ncia da intui\u00e7\u00e3o como m\u00e9todo. Para Bergson, h\u00e1 em nossa experi\u00eancia existencial, por assim dizer, dois \u201ceus\u201d. O primeiro deles \u00e9 superficial, orientado a se enquadrar na sociedade, atento ao tempo do rel\u00f3gio e aos pap\u00e9is sociais. H\u00e1, por\u00e9m, um eu profundo que s\u00f3 pode ser acessado pela intui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>No eu superficial, h\u00e1 uma sucess\u00e3o de tempos: passado, presente e o futuro que vir\u00e1. No eu profundo, eles coexistem na forma de dura\u00e7\u00e3o: o passado e o futuro s\u00e3o agora. O que Bergson busca pela filosofia \u00e9 patente no romance de Clarice Lispector. Ela n\u00e3o quer apenas a percep\u00e7\u00e3o aguda do momento: quer visitar a morada do eu profundo. Em suas palavras: \u201cMais que um instante, quero seu fluxo\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Bergson n\u00e3o \u00e9 original nesta abordagem, pelo menos na discuss\u00e3o sobre o tempo. Bem antes dele, Agostinho de Hipona (354-430) j\u00e1 havia sugerido uma cr\u00edtica \u00e0 compreens\u00e3o tradicional sobre o tempo. Para ele, passado, presente e futuro n\u00e3o s\u00e3o tempos cronol\u00f3gicos e sim tempos da raz\u00e3o, ou seja, o passado e o futuro est\u00e3o no presente, como mem\u00f3ria ou como proje\u00e7\u00e3o. Nesse sentido, a narradora de \u00c1gua Viva declara sua ambi\u00e7\u00e3o: \u201cestou tentando captar a quarta dimens\u00e3o do instante-j\u00e1 que de t\u00e3o fugidio n\u00e3o \u00e9 mais porque agora tornou-se um novo instante-j\u00e1 que tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 mais\u201d. A quest\u00e3o \u00e9: como escapar de tal condi\u00e7\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 uma pista interessante: a palavra. A narradora \u00e9 uma pintora que, trocando a tela pelo papel, embrenha-se na selva da escrita para tentar se expressar. Como ocorre com Bergson e Agostinho \u00e9 comum se aproximar <em>\u00c1gua Viva<\/em> de outro fil\u00f3sofo importante, o austr\u00edaco Ludwig Wittgenstein (1889-1951), que se dedicou ao estudo da l\u00f3gica e da linguagem. Eis um problema colocado por ele: entre o mundo e o nosso pensamento h\u00e1 um intermedi\u00e1rio, um atravessador \u2013 a pr\u00f3pria linguagem que \u00e9 incapaz de nos fornecer a imita\u00e7\u00e3o exata da realidade. Clarice parece estar na mesma sintonia quando afirma: \u201cO que eu te falo nunca \u00e9 o que te falo e sim outra coisa. Capta essa coisa que me escapa (&#8230;)\u201d. Ou ent\u00e3o: \u201cH\u00e1 muita coisa a dizer que n\u00e3o sei como dizer. Faltam as palavras\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Acontece que estamos diante de um livro, ou seja, um texto escrito com a finalidade de comunicar algo. Se \u00e9 fr\u00e1gil a linguagem, n\u00e3o podemos abandon\u00e1-la simplesmente j\u00e1 que tudo que conseguimos dizer ou pensar se faz por meio dela. Eis, ent\u00e3o, a s\u00edntese de Clarice: \u201cescrever \u00e9 o modo de quem tem a palavra como isca: a palavra pescando o que n\u00e3o \u00e9 palavra. Quando essa n\u00e3o-palavra \u2013 a entrelinha \u2013 morde a isca, alguma coisa se escreveu\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O leitor perguntar\u00e1:<\/strong> afinal, por que a escritora nos submete a um exerc\u00edcio t\u00e3o intenso de reflex\u00e3o? A cada p\u00e1gina, par\u00e1grafo ou trecho uma medita\u00e7\u00e3o profunda! H\u00e1 muitas respostas poss\u00edveis, assim como h\u00e1 diversas interpreta\u00e7\u00f5es de <em>\u00c1gua Viva<\/em>. Arrisco a minha: trata-se de uma procura angustiante pela liberdade. Tal condi\u00e7\u00e3o nos exige a busca permanente daquilo que somos e do que a realidade \u00e9: \u201cQuero apossar-me do \u00e9 da coisa\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O que quer a autora?<\/strong> Deixemos a palavra com ela: \u201cMas bem sei o que quero aqui: quero o inconcluso. (&#8230;) Quero a experi\u00eancia de uma falta de constru\u00e7\u00e3o\u201d. Todo um desmonte, tal qual se v\u00ea em outros textos de Clarice, para que se possa proceder, em seguida, uma remontagem: \u201cAntes de me organizar tenho que me desorganizar internamente. Para experimentar o primeiro e passageiro estado prim\u00e1rio de liberdade. Da liberdade de errar, cair e levantar-me\u201d. \u00c9 uma liberdade dif\u00edcil, evidente, mas aut\u00eantica.<\/p>\n\n\n\n<p>Quem se embrenha na busca de si, do \u201cit\u201d, do seu eu que est\u00e1 atr\u00e1s das palavras e, portanto, atr\u00e1s dos r\u00f3tulos e dos pap\u00e9is sociais ser\u00e1, certamente, mais livre. Por isso tr\u00eas frases me parecem costurar <em>\u00c1gua Viva<\/em>: no in\u00edcio, a senten\u00e7a vibrante: \u201cningu\u00e9m me prende mais\u201d; no meio: \u201ceu te deixo ser, deixa-me ser ent\u00e3o\u201d; e por fim: \u201csimplesmente eu sou eu e voc\u00ea \u00e9 voc\u00ea\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Desse modo, o amor, esse sentimento t\u00e3o nobre que nos faz mais livres e \u201cimpede a morte\u201d poder\u00e1 ser vivido com menos amarras e em raz\u00e3o do bem do outro. Poderemos dizer como a narradora nas \u00faltimas linhas do livro: \u201cOlha para mim e me ama. N\u00e3o: tu olhas para ti e te amas. \u00c9 o que est\u00e1 certo\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Sugest\u00e3o de leitura:<\/strong> \u201c\u00c1gua Viva\u201d (1973), de Clarice Lispector. Publicado pela Editora Rocco. Dispon\u00edvel em PDF na internet. <strong>Contato: <a href=\"mailto:freire.jose@hotmail.com\">freire.jose@hotmail.com<\/a><\/strong>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(Nota: A partir desta edi\u00e7\u00e3o, conto com a preciosa parceria de Vin\u00edcius Figueiredo que far\u00e1 a ilustra\u00e7\u00e3o dos textos) Hoje gostaria de tratar de outro livro de Clarice Lispector. Sigo a sugest\u00e3o de meu amigo Igor que, ap\u00f3s ter lido o texto sobre A paix\u00e3o segundo G.H.,sugeriu-me a leitura do inquietante \u00c1gua viva. 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