{"id":9201,"date":"2021-04-09T16:29:25","date_gmt":"2021-04-09T19:29:25","guid":{"rendered":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=9201"},"modified":"2021-04-14T00:12:16","modified_gmt":"2021-04-14T03:12:16","slug":"o-historico-sociocultural-pistas-sobre-a-violencia-contra-as-mulheres-do-mucuri","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=9201","title":{"rendered":"O hist\u00f3rico sociocultural: pistas sobre a viol\u00eancia contra as mulheres do Mucuri"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/unnamed.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-9202\" width=\"309\" height=\"324\" srcset=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/unnamed.jpg 650w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/unnamed-286x300.jpg 286w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/unnamed-401x420.jpg 401w\" sizes=\"(max-width: 309px) 100vw, 309px\" \/><figcaption><strong><strong>Juliana Lemes da Cruz<\/strong>.<\/strong><br><strong>Doutoranda em Pol\u00edtica Social \u2013 UFF.<\/strong><br><strong>Pesquisadora GEPAF\/UFVJM.<\/strong><br><strong>Coordenadora do Projeto MLV.<\/strong><br><strong>Contato: <a href=\"mailto:julianalemes@id.uff.br\">julianalemes@id.uff.br<\/a><\/strong><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Sem-titulo-1.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-9207\" width=\"482\" height=\"287\" srcset=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Sem-titulo-1.png 785w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Sem-titulo-1-300x178.png 300w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Sem-titulo-1-768x457.png 768w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Sem-titulo-1-696x414.png 696w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Sem-titulo-1-706x420.png 706w\" sizes=\"(max-width: 482px) 100vw, 482px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>O hist\u00f3rico de ocupa\u00e7\u00e3o dos territ\u00f3rios representa um elemento fundamental para a mais precisa leitura sobre a realidade objetiva das popula\u00e7\u00f5es, estreitamente associada \u00e0 din\u00e2mica das rela\u00e7\u00f5es constitu\u00eddas entre distintos grupos sociais e entre g\u00eaneros. Conforme a historiadora norte-americana Joan Scott, o termo g\u00eanero \u201c[&#8230;] \u00e9 tamb\u00e9m utilizado para sugerir que qualquer informa\u00e7\u00e3o sobre as mulheres \u00e9 necessariamente informa\u00e7\u00e3o sobre os homens, que um implica o estudo do outro. [&#8230;]\u201d torna-se uma forma de indicar \u201cconstru\u00e7\u00f5es culturais\u201d \u2013 a cria\u00e7\u00e3o inteiramente social de ideias sobre os pap\u00e9is adequados aos homens e \u00e0s mulheres.<\/p>\n\n\n\n<p>O Vale do Mucuri est\u00e1 entre as regi\u00f5es mais empobrecidas do Estado de Minas, compondo munic\u00edpios entre os mais baixos \u00edndices de desenvolvimento humano do estado, e onde a cultura patriarcal sob o trip\u00e9 do clientelismo, patrimonialismo e compadrio permanecem na base das rela\u00e7\u00f5es sociais. Traduzindo para a linguagem popular, quero dizer que vivemos em uma regi\u00e3o onde as mulheres ainda t\u00eam imensa dificuldade de se posicionar frente \u00e0 sociedade por n\u00e3o serem devidamente reconhecidas como pessoas com plenas capacidades pessoais e profissionais. Por aqui, impera o desrespeito velado, que se traveste de gentileza.<\/p>\n\n\n\n<p>Essas formas de relacionamento da sociedade para com a figura feminina n\u00e3o ocorrem apenas por parte de homens, mas tamb\u00e9m, por parte de outras mulheres. O problema est\u00e1 na estrutura, ou seja, no alicerce da sociedade e se torna mais intenso em regi\u00f5es onde as mulheres demoram mais para perceberem que s\u00e3o tratadas, e \u00e0s vezes, tratam outras mulheres de forma desigual.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse contexto \u00e9 que a viol\u00eancia \u00e9 tolerada, porque torna-se bastante natural a culpabiliza\u00e7\u00e3o das mulheres pelo fracasso das rela\u00e7\u00f5es conjugais e\/ou familiares. Assim, a soci\u00f3loga paulista Heleieth Saffioti explica que \u201cPartindo da premissa, verdadeira, em qualquer parte do mundo em maior ou menor grau, de que uma pequena fra\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia cometida por homens contra mulheres chega \u00e0s autoridades policiais, esta cifra \u00e9 extraordinariamente alta\u201d. Isso indica que a demanda real dessas viol\u00eancias pode ser significativamente superior ao que \u00e9 poss\u00edvel notificar atualmente.<\/p>\n\n\n\n<p>Por aqui, as rela\u00e7\u00f5es foram constitu\u00eddas sob trocas e reciprocidade, em regra, pela figura masculina, reproduzidas por gera\u00e7\u00f5es e naturalizadas no \u00e2mbito do territ\u00f3rio. Esse hist\u00f3rico de forma\u00e7\u00e3o e ocupa\u00e7\u00e3o refor\u00e7ou a hegemonia de patriarcas que eram temidos pela influ\u00eancia social que detinham e pelo poder de mando. Representavam aqueles que dominavam o \u00e2mbito dom\u00e9stico e gozavam de prest\u00edgio em \u00e2mbito p\u00fablico, especialmente das chefias das institui\u00e7\u00f5es locais de poder. Apesar de que, nesta regi\u00e3o (caso de Malacacheta) tamb\u00e9m se tem not\u00edcias de mulheres que assumiram esta postura, sendo nominadas como matriarcas. Em propor\u00e7\u00f5es similares, exerceram poder e utilizaram mecanismos violentos para fazer valer suas vontades.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso nos faz perceber que, n\u00e3o se trata apenas de uma rela\u00e7\u00e3o de explora\u00e7\u00e3o-domina\u00e7\u00e3o unilateral atribu\u00edvel ao g\u00eanero masculino, mas sim, uma quest\u00e3o de \u00e2mbito estrutural, arraigada \u00e0 cultura do territ\u00f3rio e mais profunda do que se imagina. Constru\u00e7\u00f5es sociais baseadas em valores e princ\u00edpios chanceladas e reproduzidas, inclusive, por uma das mais importantes institui\u00e7\u00f5es daquele per\u00edodo hist\u00f3rico: a Igreja Cat\u00f3lica. A desconstru\u00e7\u00e3o dessas rela\u00e7\u00f5es socialmente constru\u00eddas possibilita a reorienta\u00e7\u00e3o das percep\u00e7\u00f5es sociais quanto \u00e0 ruptura das determina\u00e7\u00f5es dos pap\u00e9is de g\u00eanero e dos direitos de cidadania atribu\u00edveis a homens e mulheres equitativamente.<\/p>\n\n\n\n<p>Nessa dire\u00e7\u00e3o, o patrimonialismo traz como marcadores: a heran\u00e7a; o ac\u00famulo de propriedade sem esfor\u00e7o; a associa\u00e7\u00e3o de institui\u00e7\u00e3o a qual desempenha-se fun\u00e7\u00e3o de poder, como particular; o desempenho de interesse privado travestido de interesse p\u00fablico; a apropria\u00e7\u00e3o de estruturas coletivas como se fosse de base familiar; ou mesmo, a naturaliza\u00e7\u00e3o social destes aspectos, por conta da conforma\u00e7\u00e3o ao longo do tempo. Ou seja, as rela\u00e7\u00f5es cristalizadas no bojo da sociedade moderna, podem estar incorporadas \u00e0 condu\u00e7\u00e3o dos trabalhos nas institui\u00e7\u00f5es, principalmente, p\u00fablicas locais.<\/p>\n\n\n\n<p>O enfrentamento da viol\u00eancia contra meninas e mulheres neste territ\u00f3rio, encontra-se estreitamente relacionado ao contexto hist\u00f3rico regional, uma vez que as rela\u00e7\u00f5es constitu\u00eddas por gera\u00e7\u00f5es, condicionam a organiza\u00e7\u00e3o da vida em sociedade, preservando o tradicionalismo, inibindo a rea\u00e7\u00e3o das mulheres em situa\u00e7\u00e3o de viol\u00eancia que precisam buscar amparo nas institui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Refer\u00eancias:<\/strong> Atualiza\u00e7\u00e3o do plano de desenvolvimento territorial rural sustent\u00e1vel territ\u00f3rio da cidadania Vale do Mucuri \u2013 MG \/GEPAF, UFVJM. 2010; Estradas da vida: terra e trabalho nas fronteiras agr\u00edcolas do Jequitinhonha e Mucuri, Minas Gerais. \/ Eduardo Ribeiro, 2013; G\u00eanero, Patriarcado e Viol\u00eancia. \/ Heleieth Saffioti, 2004; G\u00eanero: uma categoria \u00fatil de an\u00e1lise hist\u00f3rica. Revista Educa\u00e7\u00e3o e Realidade. \/ Joan Scott, 1995. Imagem: comunidadesebrae.com.br.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O hist\u00f3rico de ocupa\u00e7\u00e3o dos territ\u00f3rios representa um elemento fundamental para a mais precisa leitura sobre a realidade objetiva das popula\u00e7\u00f5es, estreitamente associada \u00e0 din\u00e2mica das rela\u00e7\u00f5es constitu\u00eddas entre distintos grupos sociais e entre g\u00eaneros. 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