{"id":978,"date":"2020-07-01T11:05:00","date_gmt":"2020-07-01T14:05:00","guid":{"rendered":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=978"},"modified":"2020-07-01T11:05:02","modified_gmt":"2020-07-01T14:05:02","slug":"cine-palacio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=978","title":{"rendered":"CINE PAL\u00c1CIO"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/07d1e1b6-3ed6-467f-bd13-3a13b3632dc1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-979\" width=\"295\" height=\"269\" srcset=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/07d1e1b6-3ed6-467f-bd13-3a13b3632dc1.jpg 700w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/07d1e1b6-3ed6-467f-bd13-3a13b3632dc1-300x274.jpg 300w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/07d1e1b6-3ed6-467f-bd13-3a13b3632dc1-696x636.jpg 696w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/07d1e1b6-3ed6-467f-bd13-3a13b3632dc1-459x420.jpg 459w\" sizes=\"(max-width: 295px) 100vw, 295px\" \/><figcaption><strong>Luciano Alberto de Castro<\/strong><br>Cronista e professor da Universidade Federal de Goi\u00e1s,\u00a0\u00e9 mestre em odontologia pela Universidade Federal de Goi\u00e1s\u00a0(UFG),\u00a0Doutor em ci\u00eancias da sa\u00fade (UFG),\u00a0Professor adjunto da Faculdade de odontologia da UFG<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Escutei Caetano Veloso dizer, numa entrevista, que havia sa\u00eddo da Bahia aos 18 anos contra a sua vontade. Naquele tempo, decerto, preferiria a vida simples e vagarosa de Santo Amaro. Seria funcion\u00e1rio p\u00fablico, pescador, lutaria para purificar o Suba\u00e9; mas o destino o jogou no v\u00f3rtice do mundo (pra nossa sorte). Quando sa\u00ed de Te\u00f3filo Otoni, na insensatez dos meus 17 anos, eu o fiz de caso pensado. Era um passarinho de voo curto, como um tiziu, que queria virar andorinha e migrar pra outras paragens. As aves migrat\u00f3rias buscam alimento farto e clima mais ameno; eu ansiava pelas saben\u00e7as (ainda as persigo at\u00e9 hoje). Curioso \u00e9 que a comich\u00e3o de sair n\u00e3o matou o desejo de voltar. Era chegar julho e janeiro e l\u00e1 estava eu, pisando o solo do Mucuri. Numa dessas idas sazonais, aborreceu-me a not\u00edcia da demoli\u00e7\u00e3o do Cine Pal\u00e1cio.<\/p>\n\n\n\n<p>O primeiro sentimento que me acudiu foi a saudade. Ainda que o tempo imprima em n\u00f3s certo astigmatismo que nos faz ver o passado sempre tingido de azul, o cinema nos remete aos dias felizes. Grandes amizades, risadas plenas, sobressaltos, namoros (paqueras, como se dizia), beijos e outras ilicitudes sob a escurid\u00e3o. As matin\u00eas no Pal\u00e1cio tinham cheiro de pipoca e&nbsp;<em>drops&nbsp;<\/em>multicoloridos. Era um mundo gigantesco, desproporcional ao meu tamanho. Antes do filme, o canal 100 mostrava os cl\u00e1ssicos do futebol em&nbsp;<em>close<\/em>&nbsp;e c\u00e2mera lenta; e eu, tamb\u00e9m em c\u00e2mera lenta, assistia deslumbrado. Olha, vai come\u00e7ar! Antes, os&nbsp;<em>slides&nbsp;<\/em>comerciais. Farm\u00e1cia Indiana. Magda Magazin. \u00d4 Bem Bolado. \u201cCome\u00e7a logo!\u201d, gritava um impaciente. Enfim, as trombetas da 20th Century Fox. Sil\u00eancio total. Come\u00e7ava a viagem. Era nosso Cinema Paradiso.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois da nostalgia, vem a pergunta: por que demoliram o Cine Pal\u00e1cio? Distante da cidade e dos fatos, \u00e9 temer\u00e1rio opinar. Mas tenho c\u00e1 minhas suspeitas. O capital. Quem derrubou o Cine Pal\u00e1cio foi o capital. Qualquer outro elemento ser\u00e1 fr\u00e1gil frente ao&nbsp;<em>l&#8217;argent<\/em>. Pelo que me consta, a Pra\u00e7a Tiradentes \u00e9 tombada, logo, todos os pr\u00e9dios hist\u00f3ricos do entorno da Pra\u00e7a devem (ou deveriam) ser igualmente preservados. Bobagem. Os processos legais no Brasil s\u00e3o um convite \u00e0 transgress\u00e3o. Primeiro se transgride; depois, se discute. Se negocia. Se posterga. Se esquece. H\u00e1 dois lados: o empres\u00e1rio e o poder p\u00fablico. Por lei, ambos deveriam zelar pelo patrim\u00f4nio, mas impera o pragmatismo. O empres\u00e1rio, a n\u00e3o ser que seja um mecenas, n\u00e3o preserva esse patrim\u00f4nio porque n\u00e3o lhe d\u00e1 lucro. O poder p\u00fablico n\u00e3o o preserva porque \u00e9 caro e n\u00e3o d\u00e1 voto. Implicitamente, ambos pensam: \u201c\u00c0s favas com a cultura!\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Em verdade, vos digo que h\u00e1 mais um lado nessa hist\u00f3ria \u2014 como na m\u00fasica do&nbsp;<em>Skank&nbsp;<\/em>que diz que tudo tem tr\u00eas lados \u2014: a popula\u00e7\u00e3o da cidade. Arrisco o palpite de que a maioria das pessoas apoiou a destrui\u00e7\u00e3o do velho cinema e a constru\u00e7\u00e3o da moderna e iluminada loja de sapatos. At\u00e9 o nome \u00e9 mais&nbsp;<em>chic<\/em>. Cine Pal\u00e1cio \u00e9 como jogo de damas: coisa de velho. Te\u00f3filo Otoni precisa do novo, do desenvolvimento, do emprego! Falou-se em gera\u00e7\u00e3o de 100 novos empregos (mais uma vez, me lembrei do canal 100). E outra: quem quiser assistir a filmes tem o&nbsp;<em>Netflix<\/em>, no conforto da sua casa. Que venha o progresso! Penso que cinema, literatura, pintura e hist\u00f3ria encontram cada vez menos adeptos. O pa\u00eds foi se emburrecendo, tornando-se mais cada vez mais fisiol\u00f3gico, duro, pragm\u00e1tico. Cultura foi virando mimimi. O Cine Pal\u00e1cio n\u00e3o resistiria mesmo a essa tr\u00edade adversa.<\/p>\n\n\n\n<p>Perdoe-me, leitor progressista, mas a nostalgia me assalta novamente. Teimo em pensar que a hist\u00f3ria poderia ter sido diferente. Um bem costurado acordo p\u00fablico-privado teria salvo o nosso gigante. Sonhei com o Pal\u00e1cio restaurado, excelso e imponente, iluminando a pra\u00e7a. Na pr\u00f3xima viagem, me apanharia sentado frouxamente, numa daquelas olorosas poltronas, assistindo a um show de Paulinho Pedra Azul ou rindo com Saulo Laranjeira. For\u00e7ando um pouco mais, estaria no jardim, sentado \u00e0 mesa, bebendo cerveja com os velhos amigos e ouvindo chorinho ou MPB. Se oriente, rapaz (salve Gil, 7.8), volte pro mundo real. O velho Pal\u00e1cio se foi pra sempre. Como\u00a0<em>souvenir\u00a0<\/em>nost\u00e1lgico, resta-me a poltrona de imbuia que comprei na \u00faltima vez que estive em Te\u00f3filo Otoni. Incr\u00edvel como ainda preserva o mesmo cheiro. De vez em quando, afundo o corpo nela, fecho os olhos e viajo para os tempos do meu Cinema Paradiso.\u00a0(Goi\u00e2nia, junho de 2020).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Escutei Caetano Veloso dizer, numa entrevista, que havia sa\u00eddo da Bahia aos 18 anos contra a sua vontade. Naquele tempo, decerto, preferiria a vida simples e vagarosa de Santo Amaro. Seria funcion\u00e1rio p\u00fablico, pescador, lutaria para purificar o Suba\u00e9; mas o destino o jogou no v\u00f3rtice do mundo (pra nossa sorte). Quando sa\u00ed de Te\u00f3filo [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":979,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"rop_custom_images_group":[],"rop_custom_messages_group":[],"rop_publish_now":"initial","rop_publish_now_accounts":[],"rop_publish_now_history":[],"rop_publish_now_status":"pending","footnotes":""},"categories":[25,24],"tags":[319,320,322,318],"class_list":["post-978","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-destaque","category-opiniao","tag-alberto","tag-castro","tag-cine-palacio","tag-luciano"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/978"}],"collection":[{"href":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=978"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/978\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":981,"href":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/978\/revisions\/981"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/979"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=978"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=978"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=978"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}