A repercussão do caso Pamela Hollanda e Dj Ivis: reflexões sobre o silêncio cúmplice

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América



Juliana Lemes da Cruz.
Doutoranda em Política Social – UFF.
Pesquisadora GEPAF/UFVJM.
Coordenadora do Projeto MLV.
Contato: julianalemes@id.uff.br

Nos últimos dias, Pamela Hollanda, ex-companheira do Dj Ivis, famoso pelo trabalho artístico que desenvolve, rompeu o silêncio sobre as violências sofridas no âmbito familiar. Pamela publicou em uma rede social vídeos que mostram claramente as agressões físicas que sofreu do seu ex-companheiro ainda na fase de puerpério. Diante do bebê, fruto da união do casal, e de outras duas pessoas, em momentos diferentes, o Dj Ivis foi flagrado dando tapas, puxões de cabelo e chutes em Pamela. As pessoas que presenciaram as agressões ficaram estáticas diante do que viram.

O caso foi amplamente divulgado em canais de comunicação rapidamente, uma vez que o agressor se trata de uma pessoa bastante conhecida, que tem milhares de seguidores nas redes sociais. O que chama a atenção nesse caso é o flagrante silêncio e imobilidade das pessoas que presenciaram as agressões do Dj Ivis contra Pamela. O fato, pela dimensão do problema que se arrasta vitimando mulheres, expressa a realidade silenciada de muitas delas. Mais do que a insegurança em buscar apoio em algum local, as mulheres em situação de violência ainda encontram como adversário, o silêncio cúmplice das pessoas que veem a violência, sabem o que ocorre e não se mobilizam. Estáticas, como demonstrado nos vídeos do caso, as testemunhas reagem, provavelmente, de acordo com uma lógica que atribui desimportância à violência doméstica. Afinal, parte considerável da sociedade ainda acredita e reproduz que “em briga de marido e mulher não se mete a colher”.

Nessa direção, campanhas nacionais têm mobilizado os esforços de distintos setores para o enfrentamento da violência contra as mulheres de forma articulada, uma vez que, há a visão de que violências ocorridas no espaço doméstico devem ser tratadas como problema público. Para tanto, o apoio da rede de enfrentamento à violência é primordial. Dentre os quais, os serviços disponibilizados pelo Estado, representados pelos distintos setores associados às prefeituras, aos órgãos de Estado e também, por intermédio de iniciativas não governamentais e privadas, além do voluntariado advindo da sociedade civil.

Em meio à pandemia de Covid-19, que alterou drasticamente a rotina social, mais do que nunca, a rede de apoio às mulheres deve estar fortalecida. Este amparo, geralmente, é oferecido como importante marcador da solidariedade por meio das pessoas do círculo comunitário das mulheres: conhecidos, vizinhos, amigos, companheiros da igreja e, principalmente, seus familiares. A polícia, como primeiro interventor punitivo da legislação pertinente, costuma ser o recurso estatal utilizado pelas mulheres. O que demonstra, sem dúvidas, um importante pedido de socorro, porque isso só ocorre quando o problema já chegou ao ápice.

Nas ocasiões em que se veem atendidas, nutrem a esperança do fim das agressões, mas, a realidade concreta e dura de uma sociedade que ainda não abraçou esta causa para além do discurso em suas redes sociais, condena muitas mulheres que se veem desamparadas, amedrontadas e inseguras para reagir ao que têm vivenciado. O silêncio cúmplice diz muito do que o fenômeno tem provocado nas pessoas. É como se legitimasse a expressão: “Isso não é da minha conta”. Assim, a apatia das testemunhas de violências contra as mulheres tem contribuído para a perpetuação dos registros dessa natureza contra milhares de anônimas Brasil afora e que, talvez, nunca tenham voz para manifestar o quão complexo é romper o ciclo violento se lhes falta acolhimento e sobra insegurança de como e quando agir. Charge: @desenhosdonando.

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