A força do símbolo e o seu limite

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José Carlos Freire

Professor da UFVJM,
Campus de Teófi lo Otoni/MG

Lembrei-me outro dia dos tempos em que, fazendo o roteiro costumeiro da população do nordeste mineiro, migrei para São Paulo.
Numa segunda-feira gorda de setembro, pego o metrô na zona leste. Sigo pensando em minha infância na roça, enquanto procuro dois lugares mínimos, um no chão para pôr os pés e outro na barra de poio para a mão. Eu e mais o mundaréu de gente seguimos pendurados, feito carne no açougue.
Não tirávamos muito leite e tínhamos apenas algumas vaquinhas. Ainda me lembro de uma que se atolou no brejo e teve de ser sacrifi cada, coitada. O sítio do meu pai era pequeno, mas na vizinhança havia fazendas, grandes retiros de leite. Às vezes, eu via caminhões levando a boiada para a cidade, para o abate. Aquele sacolejo, os esbarrões, a poeira, os olhos dos bois perdidos na paisagem que passava, igual
aos diversos, agora, que se perdem nas colunas de cimento do túnel do metrô.
Chego ao Braz. É a visão do inferno. Antes de a porta abrir, cada um já procura se defender como pode. Firma o pé, vira o ombro, segura com mais força na barra. A porta se abre… É o fi m dos tempos!

Quando o capataz da fazenda abria a porteira que dava acesso ao outro pasto, a boiada entrava se atropelando. Meu pai dizia que a cerca, pra ser boa, tem de ser bem feita. A gente sabe que a força do boi é muito maior que a resistência da cerca.
Mas ele não a pula; acostuma-se; cria o símbolo da cerca; internaliza o mandamento “Não pularás!”. Mas
basta que um boi perceba uma passagem na cerca e se arrisque a rompê-la e pronto!

Ainda mais se a boiada estiver acuada, sob pressão ou risco. É o estouro. Coisa linda da natureza, a classe bovina se organiza em segundos.
Haja capatazes, cavalos e paulada no lombo para fazê–la voltar ao curral. Pode até voltar, mas briga até o fim. Estação Sé. Não saio do metrô: eu saí à força.
Vou pro Jabaquara, mas ao descer as escadas vejo um mar de gente que me desanima. “Impossível viver
num lugar desses!”; a velha frase que ronda minha cabeça desde o primeiro dia que troquei as serras de Minas pela fumaça paulistana.
À noite, a mesma coisa. Com a agravante do cansaço do dia. Voltamos pendurados e cochilando em pé,
quais bois que dão trabalho para subir no caminhão, e do cansaço de lutar, quando são colocados ali, resta-lhes fechar os olhos e deixar o sacolejo embalar um cochilo melancólico.
Um pouco abaixo da linha do metrô, enquanto fantasio uma fuga pela janela de vidro, querendo um pouco de calma e silêncio, vejo lá embaixo na rua uma fila de pessoas esperando para ganhar um prato de sopa e um pedaço de pão. A vida de albergue é parecida com a de gado de segunda, que o caminhão não leva por não dar peso de venda.
Na fila da sopa não são tantos como dentro dos vagões; são magros, fracos, como as nossas vaquinhas do sítio. Quando eu, à tardinha, ia colocar ração no cocho, elas vinham, lentamente, pasto afora, para receber o trato e ruminar sua vida fadada pelo resto da noite.
“Afi nal, o que nos diferencia dos bois?”, pergunto-me, ao conseguir um pouco mais de espaço quando, no Braz, metade do público desce, na transferência gratuita a outros caminhões.
E me assusto por ver que apenas uma coisa nos distingue: o número de patas. Somos tão semelhantes
que, um dia, num descuido dos capatazes, alguém de nós perceberá uma passagem na cerca, e forçando-a, descobrirá que ela é muito menos resistente do que parece: ela é um símbolo, um mandamento assumido. O primeiro passará, o terceiro, e, em segundos – coisa linda da história – será o caos!

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