Prof. Jeferson Botelho
Caráter, ética e valores morais são inegociáveis
RESUMO:
O presente ensaio analisa, a partir de uma alegoria clássica — a história do rato e da ratoeira —, os recentes ataques à Venezuela sob a ótica do Direito Internacional, da ética política e da responsabilidade coletiva das nações. Demonstra-se que a indiferença diante da violação de direitos e da soberania de um povo não apenas normaliza a barbárie, mas prepara o terreno para novas tragédias globais. A reflexão aponta o imperialismo econômico como força motriz dos conflitos contemporâneos, ressaltando que a omissão de hoje é a ruína de amanhã.
Palavras-chave:
Imperialismo; Venezuela; Direito Internacional; Soberania; Estatuto de Roma; Direitos Humanos; Responsabilidade Global.
INTRODUÇÃO:
Conta-se que um rato, profundamente angustiado, descobriu que o dono da fazenda havia adquirido uma ratoeira para capturá-lo e matá-lo. Desesperado, saiu em busca de ajuda.
Procurou primeiro a galinha:
— Senhora, por favor, ajude-me. O patrão comprou uma ratoeira e vai me matar.
A galinha, indiferente, limitou-se a afastar-se. O rato então buscou socorro junto ao porco:
— Senhor porco, por favor, o patrão comprou uma ratoeira. Minha vida está em risco.
O porco, assim como a galinha, ignorou-lhe o apelo. Em última tentativa, o rato recorreu à vaca:
— Senhora vaca, imploro por ajuda.
A vaca continuou a pastar, alheia ao drama alheio. O rato, então, compreendeu que sua sentença estava próxima.
Durante a madrugada, porém, a esposa do fazendeiro tropeçou na ratoeira e se feriu gravemente. Hospitalizada, recebeu alta com recomendação de dieta leve. Para alimentá-la, a galinha foi sacrificada. O estado da mulher piorou, e novos visitantes chegaram; o porco foi abatido para servir-lhes refeição. Em seguida, o quadro clínico agravou-se, a paciente veio a falecer, e para atender a multidão no velório, a vaca foi morta.
ANÁLISE CRÍTICA CONTEXTUAL:
A alegoria revela a lógica cruel da indiferença: quando um mal não nos atinge diretamente, tendemos a considerá-lo irrelevante. Entretanto, a história demonstra que a omissão não protege ninguém — apenas adia a própria destruição.
Essa narrativa se projeta com assustadora precisão sobre o cenário geopolítico contemporâneo. Hoje, a vítima é a Venezuela, violentamente atacada sob pretextos frágeis, em frontal violação às normas do Direito Internacional. Não se trata de resgate humanitário, tampouco de libertação de um povo oprimido, mas de disputa por riquezas estratégicas — o chamado diamante negro do século XXI: o petróleo.
Como no conto, a comunidade internacional observa, silente, como galinhas, porcos e vacas do sistema global. Ignora-se que o precedente criado contra a soberania venezuelana abre caminho para novas agressões, contra qualquer nação que detenha riquezas cobiçadas por um imperialismo voraz.
A Carta das Nações Unidas, o Estatuto de Roma e a Constituição brasileira consagram princípios inegociáveis: soberania dos povos, autodeterminação, proibição do uso arbitrário da força e proteção da dignidade humana. Todavia, tais normas tornam-se frágeis quando submetidas aos interesses econômicos das potências.
REFLEXÕES FINAIS:
A ratoeira do mundo já está armada.
Hoje foi a Venezuela. Amanhã poderá ser qualquer nação que possua algo que o império deseje. O silêncio das galinhas, dos porcos e das vacas não impede a morte — apenas a torna inevitável.
O imperialismo moderno não se anuncia mais com bandeiras e frotas, mas com discursos humanitários vazios e contratos milionários.Enquanto isso, vidas são ceifadas, soberanias esmagadas e o Direito Internacional reduzido a retórica ornamental.
Não se derrota um tirano adotando os instrumentos da própria tirania.
Combater a violação dos direitos humanos exige, antes de tudo, respeito incondicional à vontade soberana de um povo e fidelidade às normas do Direito Internacional. Defender a democracia e o Estado Democrático de Direito não é opção — é dever histórico, é missão civilizatória.
Todavia, quando a busca por riquezas naturais se disfarça de justiça e se converte em agressão arbitrária, a nobreza do discurso se dissolve na brutalidade do ato. A violência, ainda que vestida de retórica moral, continua sendo desumana. E toda ação desumana, por mais eloquente que seja sua justificativa, carrega consigo a semente da própria condenação.
Ou a humanidade desperta para sua responsabilidade coletiva, ou seguirá repetindo a tragédia do rato: assistindo, inerte, ao avanço da própria destruição.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
BOBBIO, Norberto. A Era dos Direitos. Rio de Janeiro: Campus.
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988.
CANÇADO TRINDADE, Antônio Augusto. O Direito Internacional em um Mundo em Transformação. Rio de Janeiro: Renovar.
ONU. Carta das Nações Unidas, 1945.
PIOVESAN, Flávia. Direitos Humanos e o Direito Constitucional Internacional. São Paulo: Saraiva.
TRIBUNAL PENAL INTERNACIONAL. Estatuto de Roma, 1998.
Prof Jeferson Botelho