Há dois momentos mágicos de um período de férias: o primeiro dia, que é uma libertação das regras de horário e compromissos; e o último dia, quando se retoma a rotina. Duas faces da vida: a permanência e a mudança, velho tema da filosofia desde os antigos gregos.
Não serei hipócrita: adoro o domingo, o feriado, as férias! A pausa é o que dá à vida, tal como à música, a cadência e a harmonia. Mas preciso também confessar: amo a rotina! A regularidade, um mínimo de cálculo, o dia da feira de supermercado, a hora certa de acordar, de comprar pão, de varrer a calçada etc. Essa coletânea de atividades, intercalada com a maior delas – o trabalho formal – constituem o dia, a semana, o mês.
Admiro muito quem se organiza de modo dinâmico, sem previsões fixas, a cada dia de um modo espontâneo. De verdade, mas não consigo. Apenas nas pausas. Ainda assim, pelo traço de personalidade, tenho recaídas de querer exportar para as férias os padrões de planejamento.
Devo meu apreço à rotina a duas fontes. Primeira, a raiz roçaliana. A vida de roça – ao menos aquela da minha infância, sem celular e internet – se regia pela constância, devido à proximidade com a natureza. Gente de roça dorme com as galinhas e acorda com os galos, sábio ditado popular. Sol, lua, dia e noite são atores protagonistas da vida, diferente da cidade em que estes são meros figurantes. A cidade é, por definição, a luta contra a natureza – ilumina noite, muda o curso do rio, impede o silêncio, espanta os bichos.
É curioso. Tantas vezes, na adolescência, ficava admirado com o fato de meu pai, mesmo quando não era preciso, acordar cinco horas da manhã. Até no inverno! Hoje, na cidade e já no segundo tempo do meu jogo da vida, vejo-me fazendo a mesma coisa – enquanto os filhos dormem até tarde. Seria uma forma simbólica de retorno à raiz, mesmo tendo saído da roça a quase quatro décadas? Talvez.
A segunda fonte vem dos tempos de seminário. O convívio com os frades franciscanos me ensinou a importância da ritualística. Ela já estava lá, na minha vivência rural, mas agora se formulava melhor a noção de ritual: arrumar os pratos para o café do dia seguinte, lavar a louça, fazer a comida, arrumar a cama, seguir os horários de trabalho, estudo e orações. Foi uma boa escola. Esses momentos, por triviais que fossem, passaram a ser carregados de valor para mim. Dão sentido ao cotidiano.
Das duas fontes vem meu gosto por estar em casa. Se para muitos é lugar do enfado, para mim é a vereda onde me refaço. Um boi para não sair, uma boiada para ficar! Por vezes, chego a beliscar um pedacinho daquilo que se chama paz.
Mas nada é perfeito, muito menos a rotina. Ela tem seu lado traiçoeiro e ilusório: apenas nos dá a sensação de controle, facilmente desmontada quando desdobramos o seu tecido e encontramos buracos, linhas soltas, um fecho que não funciona.
O vidro da porta da sala trincado denuncia a urgência de reparo, assim como o da janela do quarto. Na garagem, o quadro do joguinho de basquete que se soltou aguarda há meses um conserto; perto do tanque, a grade da cama que implora por ajuste. Na cozinha eu nem passo, porque já sei que tem o piso, a mesa, o ventilador para limpar. E o açúcar que acabou.
As manchas na pintura anunciam despesa grande num futuro próximo. O filtro de água para trocar, o rejunte do banheiro, a revisão do carro. Minha mesa de trabalho é um conjunto de pendências. A viola empoeirada indica que algo está faltando – ou em excesso.
Entrego os pontos. Nada está, de fato, sobre controle. No fundo, por trás da rotina, oculta-se a verdade inescapável: vamos fazendo o que é possível, dentro das condições, deixando um monte de coisas para depois – numa palavra, vamos apagando um incêndio após o outro. Sob a maquiagem do planejado, está o caos. Pai do universo e mola da existência.
Vem-me à memória a motoquinha irritante do desenho Carangos e Motocas, sensação dos anos 80. Quando alguma coisa não saia como o planejado pelos grandões, ela repetia: “Eu te disse! Eu te disse!”. Era a voz da sensatez, em todo episódio. Assim como a verdade que nos sacode da fantasia: você pode até estabelecer uma rotina, mas ela não funcionará como um relógio, nem garantirá que tudo esteja em ordem. Ela somente lhe dará a sensação de que dirige o carro.
Pensando bem, talvez o domingo, o feriado, as férias não sejam a pausa, mas os momentos em que escapamos da ilusão. A rotina seria a exceção, a máscara que o caos aceita usar para nos convencer de que o domamos – até que ele ressurja com toda força.
A ideia me assusta. O que seria de mim sem a regularidade? Cuidemos da vida. Melhor recolher o lixo e colocar lá fora. Já está quase na hora do caminhão passar!
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(*) Professor na UFVJM, Campus de Teófilo Otoni/MG. Contato: freire.jose@hotmail.com.









