Os números do abandono: estudo aponta vulnerabilidade social em todo o Vale do Mucuri

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Levantamento da UFVJM, a partir do Índice de Progresso Social (IPS) Brasil 2026, mostra que 12 cidades do Mucuri estão entre as piores do estado para se viver — e que o problema vai muito além de Ladainha, único município do Sudeste entre as 20 piores cidades do país.

Por Márcio Achtschin Santos é pós-doutor pela UFMG e professor da UFVJM

Em maio de 2026, a grande mídia deu destaque ao fato de Ladainha ser o único município do Sudeste brasileiro entre as 20 piores cidades para se viver no país, segundo o Índice de Progresso Social (IPS) Brasil. A informação, no entanto, repercutiu pouco na região. Um levantamento mais amplo, feito a partir dos mesmos dados pelo Núcleo de Pesquisas sobre Educação, Políticas e Cidadania da UFVJM, mostra que essa realidade não é exclusiva de Ladainha: 12 cidades do Vale do Mucuri aparecem entre as piores posições de Minas Gerais no índice.

O que mede o IPS Brasil

O IPS Brasil avalia anualmente 5.570 municípios com notas de 0 a 10, a partir de 57 indicadores sociais e ambientais que medem resultados — não investimentos. Os dados são organizados em três dimensões: Necessidades Humanas Básicas (nutrição, saneamento, moradia e segurança), Fundamentos do Bem-estar (educação básica, acesso à informação, saúde e meio ambiente) e Oportunidades (direitos e liberdades individuais, inclusão social e acesso ao ensino superior).

Em 2026, o Brasil pontuou 72,35 no IPS Global, na 55ª posição entre 170 países — atrás de Chile, Uruguai e Argentina na América do Sul. O melhor índice do país é o de Gavião Peixoto (SP), com 73,10, e o pior é o de Uiramutã (RR), com 42,44.

Mucuri tem os piores índices de Minas Gerais

Entre as 25 cidades da área de influência de Teófilo Otoni, os números do Vale do Mucuri são os piores do estado. Com exceção da própria Teófilo Otoni, todas as demais cidades da região estão acima da 600ª posição entre os piores municípios de Minas Gerais para se viver, e 12 delas ultrapassam a 800ª colocação. Ladainha ocupa a pior posição entre os municípios mineiros, seguida por Catuji.

A média do IPS do Mucuri é de 56,16 pontos, bem abaixo da média nacional de 72,35. O quadro se agrava ao considerar o PIB per capita: enquanto a média brasileira é de R$ 59.687,49, a do Vale do Mucuri fica em R$ 17.724 — cerca de três vezes menor. Apenas Nanuque, Carlos Chagas e Teófilo Otoni superam essa tendência regional, ainda que com valores próximos à metade da média nacional. A própria Teófilo Otoni, cidade polo da região, tem IPS e PIB per capita inferiores aos de todos os outros 20 maiores municípios de Minas Gerais.

Dimensão “Oportunidades” é a mais crítica

Das três dimensões do IPS, a de “Oportunidades” registra os números mais preocupantes na região. Enquanto as dimensões de Necessidades Humanas Básicas e Fundamentos do Bem-estar variam entre 54 e 78 pontos nos municípios do Mucuri, a de Oportunidades fica entre 32 e 47 — nível tão baixo que seis cidades da região aparecem, nesse quesito, em situação pior do que Uiramutã (RR), a pior colocada do país no índice geral.

Desnutrição afeta 65% dos municípios da região

Os indicadores não seguem um padrão único entre as cidades do Mucuri, mas alguns problemas se repetem com frequência. A desnutrição aparece registrada em 17 dos 25 municípios analisados — 65% do total —, apontando um quadro relevante de insegurança alimentar. Cerca de 20% das cidades também registram índices elevados de mortalidade infantil.

Na dimensão Fundamentos do Bem-estar, mais da metade dos jovens da região foi reprovada ou abandonou o ensino médio. Também chamam atenção os 44% de municípios sem acesso significativo à internet e a mortalidade de 32% entre pessoas de 15 a 60 anos.

Já na dimensão Oportunidades, 15 dos 25 municípios têm nota abaixo de 40, e nenhum chega a 47. Os dados mostram alta incidência de violência contra mulheres, negros e indígenas em 56% das cidades, ausência de paridade mínima de gênero e raça nas Câmaras Municipais em 40% delas, e dificuldade de acesso ao ensino superior em quase metade da região.

As tabelas completas do estudo, com os índices individuais dos 25 municípios da região, estão disponíveis na edição impressa.

Acesse o link abaixo e veja a edição completa do Diário Tribuna de sexta-feira (07/08/2026):
Diário Tribuna – sexta-feira – 07 de agosto de 2026 – completo

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