Manhã de sol

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José Carlos Freire
Professor na UFVJM, Campus de Teófilo Otoni/MG

Movimento na praça, feriado prolongado. Gente, bicicleta, o carro da laranja que passa. Um dia comum. Mas o que seria o comum na parte periférica da cidade de um país periférico?

O relógio do celular marca dez horas. Troca mensagem com o pai, agente de limpeza urbana como ele. A diferença é que, neste sábado, o pai trabalha; ele está de folga. Um churrasquinho e uma cerveja, a prosa com os amigos. Ele segue seu caminho. Sirenes. Não é uma operação policial que vai lhe assustar, criado que foi sob sons de tiros nas madrugadas.

Repara, virando a esquina, que o policiamento é feito em pequeno número, mas com muito grito e chacoalhão. Nunca gostou disso, ainda mais dessa forma. Tem amigos que foram para a polícia, sabe o papel dela, por isso não consegue se conter e corre para o amontoado de gente em torno da árvore central. É que um senhor de idade havia sido abordado de forma rude.

Chama o policial para conversar e este já saca a arma. A opinião comum é que numa hora dessas se deve ter a cabeça fria e acalmar os ânimos. Exatamente. Mas a vida não é previsível, nem calculável. Basta que se suba um tom de voz, um palavrão direcionado e pronto! Ele vê, ao longe, o pai deixando o material de trabalho e vindo em sua direção com movimentos enfáticos dos braços. “Calma! Calma”, uma senhora grita.

O suor lhe escorre pela face quando adverte o policial: “Você não pode tratar um senhor de idade assim, rapaz! Tá lôco!”. O policial visivelmente alterado impunha a arma: “Cala a boca! Não tô falando com você!”. Os demais policiais estão longe e são poucos. Era a hora de recuar? Ou a hora de avançar?

Há um empurra-empurra e seu corpo pesado é lançado contra o policial sem que possa evitar. Muita gente reunida e agitada, tendo no meio uma pessoa com uma arma na mão. Desde a invenção da pólvora isso nunca deu certo. Não seria agora. Um estampido seco, um calor insuportável no pé esquerdo, o sangue jorra rapidamente. Do momento do tiro em diante, se fosse possível lhe pedir um relato detalhado, só conseguiria juntar fragmentos de imagens e sons. Em condições normais, o procedimento policial adequado seria parar a abordagem e passar ao socorro à vítima. Mas aquela situação, de saída, já não se enquadrava como normal.

O sol é escaldante, os sons se misturam, o pai esbraveja com o policial. Acalmar o pai ou acudir a dor no pé que lhe dilacera? O pai leva um empurrão do policial. Ele supera a dor do pé e parte pra cima. Arranca a camisa, grita com toda a força: “Estou desarmado, tá vendo? Você tá lôco? Não empurra o Velho assim, cara!”. Tentam tirá-lo dali, mas agora é o policial quem quer passar a limpo a ofensa. A propósito, ofensa de quem?

“Levanta as mãos, cidadão!”. Mal consegue ficar em pé, pela dor que já lhe sobe perna acima. “Levanta as mãos, porra!”. Ele tenta se controlar, mas é difícil. Encara o policial, mesmo cambaleante. São duas faíscas que se cruzam, só que uma vinda de alguém armado e a outra de um ferido. Mais um empurrão, mais um xingamento, a aglomeração se fecha. É o caos.

Dessa vez ele mal ouviu o estampido. Ou ouviu, mas o impacto abaixo da costela foi tão forte que o fez desabar semiconsciente. Era um calor diferente que o primeiro no pé. Tomava-lhe o peito, a garganta.

Recobre um pouco dos sentidos e vê o velho pai lhe segurando a cabeça, aos gritos: “Calma, meu filho! Não se mexe! A ambulância já vai chegar”. Fazia mais de três décadas que não via o pai chorar. A última vez foi quando caiu da bicicleta descendo o morro e quebrou o braço. Dentro do fusca do cunhado, lá ia o pai segurando o menino entre bravo e desesperado. Mas agora era diferente: não havia braveza, só desespero. E muita raiva. Raiva da polícia, raiva do mundo!

Voltou à consciência já na ambulância que cortava as ruas estreitas do morro. O socorrista estancando o sangramento, o pai segurando suas mãos. “Velho! Não dei conta…”. A frase cortada indicava a quebra de um antigo pacto: nunca se indispor com polícia em situação desfavorável. Era a hora de um sermão? Claro que não! O pai pediu que se calasse, com um toque suave de dedo em seus lábios.

Aquela sirene… Lembrou-se da infância. Mas como? Dá tempo de pensar tanta coisa num momento desses? Ora, a mente humana! Ela se expande sem freios nos instantes que antecedem o fim. Assim narra quem já passou por situação de quase morte.

Balançando naquela maca ele viu tanta coisa que nunca será possível ninguém saber. Só se ele voltasse, mas aquela viagem era apenas de ida. Talvez tenha visto a saudosa mãe, o velho barraco onde nasceu, a escola, o agito do intervalo brincando de polícia e ladrão…

O pai lhe ouve sussurrar. Chega mais perto para tentar ouvir. “Fogos…”. “O que, meu filho?”, diz o pai com o peso de um presságio imenso no peito. “Os fogos. Tá chegando a hora pai…”. Ele alucinava.

De repente a represa se rompeu. O pai havia entendido: “Os fogos de fim de ano!”, lembrou. Até a adolescência do menino, os dois sempre subiam até o alto do morro para ver a cidade na virada do ano. E cabia ao pequeno dizer ao pai que estava chegando a hora quando ouvia o som dos primeiros fogos.

Abraçou o filho com toda a força que conseguiu. Mil socorristas não impediriam aquele impulso. As lágrimas de toda uma vida de luta lavaram a face do filho. O motorista diminui a velocidade, desliga a sirene. Desta vez sem fogos, a hora havia chegado.

Contato: freire.jose@hotmail.com

Ilustração: Vinícius Figueiredo

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