Sobre o emburrecimento…

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Aníbal Gonçalves

A primeira coisa que faço como um cronista do cotidiano, ao atrelar-me à canga do teclado, é perguntar-me qual será o assunto da semana. Justamente o que estou fazendo agora nesta terça-feira (16), enquanto o entardecer desaba sobre o céu feito um doente anestesiado sobre um leito do Hospital Dr. Raimundo Gobira, em Teófilo Otoni.

Pois é, assim como são as pessoas, são as criaturas e é justamente por tal fato que os seres humanos são máquinas de funcionamento complexo e nada simples de decifrar e entender. Que o digam Coti, proprietário da Carlos Alberto Imóveis – e o Dias, da Donna Pizza.

Apesar de ser conhecido como um pensador contumaz, um homem habituado a meditar, o Cajaíba, palestrista e “ex-petista” teofilotonense, jamais deixou de preocupar-se com as chamadas grandes questões de nosso quadro social. Bem sei que, para muitos, pode até parecer uma postura um tanto quanto elitista e radical quando nosso sapiente dr. Walcir Costa – este o nome dele constante no batistério -, “garante” que estamos vivendo um processo contínuo e inexorável de emburrecimento constante e permanente.

Heróis, vilões, ídolos e outros demais mitos midiáticos mudam a cada temporada, com a trágica obsessão consumista aliada ao tédio de quem tem tudo e à desesperança dos que nada têm de seu, vai gerando continuamente em corações e mentes o culto da futilidade. Sem falar da adesão ao desperdício da pura ostentação mais ridícula e descabida cultivada com adoração inamovível a cada dia. Sim, é verdade. Vivemos em tempos de globalização (ô palavrinha mais chata e sem vergonha) da mediocridade exaltada aos píncaros e institucionalizada. Não é a primeira vez que toco nesse assunto e certamente também não vai ser a última.

Realmente, para ser o mais sincero possível, não sei quem me parece mais colonizado, se músico de banda baiana fantasiado de guerreiro africano ou se os cantores sertanejos travestidos de caubóis de comercial de cigarro dos tempos idos do reclame. Ser nacionalista, dizer-se nacionalista tornou-se, por si só, um termo pejorativo, insultuoso. Tanto que, outro dia, alguém veio me indagar se eu já havia ido conhecer Miami, porque não compreendia como é que se podia viver sem conhecer o paraíso dos sacoleiros classe média remediada. Ora, vejam.

Ora, pílulas, se eu tivesse o suficiente numerário sobrando no meu combalido bolso para gastar em viagens, certamente jamais iria torrar meu rico e suado dinheirinho comprando engodos made in China ou brincando de Peter Pan na Disneylândia, passando o tempo enchendo o bucho com cachorro-quente lambuzado com manteiga de amendoim. Penso que a única e última diferença que resta, pelo andar da carruagem dos modismos, entre a elite endinheirada, emergente e a miada e sofrida gente lisa é o tal de poder aquisitivo. Todo mundo virou farofeiro de elite, tanto faz se em Alcobaça, Nova Viçosa ou numa praia do Caribe.

Entanto, voltando à vaca fria, fazer o quê? Quem sabe, ao invés de ficar aqui discorrendo sobre consumismo e futilidades, talvez devesse discorrer liricamente sobre a ilusão do primeiro corpo nu de uma mulher langorosamente aninhada em meus braços juvenis lá em Coroaci.

Eu poderia escrever sobre uma discussão que tive com minha amada por um não sei quê estúpido e banal e que ora me mata de remorsos, talvez nem merecidos. Ou escrever sobre os amigos mortos tão precocemente no passado e no presente. Ou sobre o desejo antigo, que em mim reside, de mandar tudo pra m…., exilar-me lá no pequeno paraíso do saudoso “Seu Antônio Berilo”, muito perto de Novo Oriente de Minas, e escrever o romance de minha geração. Porém, na verdade, sou um navegador urbano – eventualmente ancorado nessa Teófilo Otoni regada a uma insuportável cacofonia, fruto indesejável da poluição sonora nessa outrora Cidade do Amor Fraterno – um mito grego depois da Covid-19, eternamente indeciso entre ir ou ficar…

Sobre o colunista: Aníbal Gonçalves é pedagogo, graduado em Administração Escolar, ex-diretor da Escola Estadual de Coroaci – MG [hoje Dona Sinhaninha Gonçalves] e professor de Filosofia, Sociologia e História da Educação. Foi chefe do Departamento de Educação Cooperativista da CLTO. Atualmente, jornalista e radialista da 98 FM (Teófilo Otoni) e colunista do Jornal Diário Tribuna.

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