A curva

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José Carlos Freire
Professor na UFVJM, Campus de Teófilo Otoni/MG

Foi somente no hospital que ele recobrou de vez a consciência. Tinha alguns relances de memória. Lembrava-se de estar ao volante e de ter sentido o carro derrapar, mas não se recordava do impacto. Depois disso, trocava palavras com a filha, para saber como ela e o irmão estavam. A esposa estava ferida, mas bem. Eram meio misturadas as cenas. O pessoal abrindo a porta, ajeitando suas pernas para tirá-lo do veículo.

O restante da história só conseguiu montar depois, aos poucos, juntando pedaços de lembranças próprias, dados do boletim de ocorrência e relatos dos filhos. Nos meses que se seguiram se acostumou a narrar os acontecimentos. O cuidado do seu pai ao buscar as crianças no hospital, os exames, o apoio de amigos e amigas que tanto lhes ajudaram, a volta para casa, a lenta recuperação, a fisioterapia. Era comum que, após contar a história, fechasse com a frase: “Nascemos de novo!”.

A vida seguiu seu rumo e, depois de meses, um ano, dois, três, o que restava, além da memória, eram pequenas sequelas no ombro e no joelho. Estava vivo! Era o que importava. De algum modo, era como se uma segunda chance de viver lhe fosse dada. “Um bônus!”, pensou certa feita. “Eu tive um bônus de vida!”.

Um dia, conversando com um amigo, revelou algo que o inquietava: “De vez em quando eu penso: e se tudo isso aqui for apenas um sonho? Um filme que está passando na minha cabeça? E se, na verdade, eu estou ainda naquele carro desacordado?”. Essa ideia logo passava. A rotina se impunha. Um filme.

“Foi isso!”, um dia pensou, lembrando-se de Vanila Sky, filme que tinha um personagem com traumas de um acidente e confusão de memória. Era evidente que ele, semelhante ao personagem, havia criado um roteiro fictício para o seu caso e passou até a se valer disso para um autoaprendizado. Com amigos, costumava comentar sua teoria, sempre arrematando a conversa com esta sentença: “Temos que aproveitar cada instante de vida! Poderíamos não estar aqui mais!”.

Já se haviam passado vários anos do acidente. Os filhos grandes, o trabalho, a família. Tudo seguia seu fluxo. Mas aquela ideia sempre ressurgia: “E se isso é apenas um sonho?”. Soprava o pensamento para longe e seguia.

Ocorre que, em certa altura, ela passou a se repetir com mais frequência. Chegou a comentar com o mesmo amigo, que lhe tranquilizou: “Relaxa, rapaz! É sua mania de ficar filosofando sobre tudo”. Concordava, mas sem muita convicção.

Certa manhã, a questão mudou de qualidade. Passando pela rua em frente ao mercado, seu trajeto de quase todos os dias, teve a nítida impressão de que os cones que via não estavam daquele jeito antes. Eram seis: dois inteiros, quatro quebrados. Todos desalinhados. “Que besteira!”, pensou. Mas a estranheza era real. Era como se alguém, entre um ato e outro da peça, mudasse o cenário. Ao se reabrirem as cortinas, o contraste se mostrava.

“Outro filme!”, tranquilizou-se, lembrando de Matrix. Neste clássico do cinema, que mostra a vida como uma grande projeção de imagens, havia momentos em que o protagonista percebia falhas na programação. Adotou, então, essa ideia para os momentos de estranhamento.

O muro de uma das casas do morro em frente à sua desabara. No ponto de táxi o assunto era esse. Diziam que fazia tempo, das chuvas de janeiro. Mas já era abril! Como ele não havia percebido? Respondia para si mesmo, com solenidade: “Outra falha da Matrix!”. A torre da caixa d´água em frente à escola que antes não existia. “Falha da Matrix!”. A explicação era boa, mas o assustava mais e mais.

Começou a perceber certos apagões de lembrança. Algumas coisas que os filhos contavam de meses atrás ele não havia percebido. Era como se o tempo fosse dando saltos e ele não conseguisse ver alguns trechos. “Outro filme…”, balbuciou certo dia, recordando de uma história em que o personagem possuía um controle remoto mágico que fazia o tempo acelerar, saltando etapas.

Era evidente que aquilo crescia. As coisas se juntavam em sua cabeça: “Só pode ser um filme! Por isso esses cortes!”. Já não usava mais o velho método de aproveitar cada instante como se fosse único, posto que poderia ter morrido; ao contrário, passava a olhar cada momento com um sentimento de despedida, como alguém que, tendo um sonho bonito, percebesse que está sonhando e começasse a se preparar para o momento de acordar.

Certa noite, essa sensação foi tão forte, mas tão forte, que ele resolveu fazer tudo como num ritual: olhou da varanda com calma a lua crescente, fechou as janelas da casa com leveza, trancou o portão, colocou comida para a gatinha, beijou a filha e o filho demoradamente e, contendo as lágrimas, disse a eles as palavras mais ternas que conseguiu.

Por fim, já na cama, beijou a esposa com carinho e virou-se para o canto. Sentia-se leve como pluma ao vento. “A vida é um espetáculo tão curto e tão maravilhoso!”, o pensamento lhe veio suavemente, junto com um sutil calafrio.

De repente, viu-se na mesma estrada daquela viagem. Agora era tudo nítido! Sente o carro derrapando. O impacto, vidros quebrados, desmaia. Recobra os sentidos, troca palavras com a filha. Ela, o irmão e a esposa estão bem.

Pessoas forçam a porta do carro, ajeitando suas pernas para lhe tirar do veículo. Na urgência, elas não percebem, no seu rosto ensanguentado, um leve sorriso. “Então foi isso!”, ele pensa. “Foi um belo filme”, conclui. E com a calma de quem agora tudo entende, fecha os olhos pela última vez.

Contato: freire.jose@hotmail.com

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